sexta-feira, fevereiro 06, 2009

V Domingo Tempo Comum (B)

V Domingo
Tempo Comum (B)



Tema: o mal existe e não é invisível.

Porque é que o homem está destinado a sofrer? A resposta tradicional judaica a este enigma é a denominada “doutrina da retribuição” que Elifaz, o amigo de Job, assim sintetiza: «Qual o inocente que já pereceu? Ou quando foram exterminados os justos? Sempre vi que os que praticam a iniquidadee semeiam a maldade colhem os seus frutos». Contudo, a vida desmente de forma impiedosa este dogma da fé judaica, evidenciando a sua ingenuidade, o aspecto provocatório e a insolência em relação a quem sofre.
O mal existe, não devendo ser explicado, mas antes combatido.

I Leitura
O protagonista é Job que, inicialmente rico e feliz, é atingido de forma imprevista pela desventura: perde os filhos, os bens, a saúde; sofre devido a uma chaga maligna, “desde a ponta dos pés às pontas do cabelo”. Até a esposa é tomada pelo desgosto, e dando livre curso à sua raiva irreprimível, grita-lhe: “Persistes ainda na tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre de um vez!”.
A leitura de hoje contém uma célebre reflexão sobre a mutável condição da pessoa: a vida não é mais do que dor; o ser humano é um escravo, submetido a sacrifícios imensos dos quais não tira qualquer proveito. É um texto claramente existencialista.
Perante uma situação de desespero existencial e ôntico, rapidamente somos impulsionados a colocar imensas questões do foro existencial que nos fazem sentir o abandono de Deus e, de algum modo, a revolta para com Deus: “Porque é que Deus me colocou numa situação destas? Porque razão me coloca numa situação tão desesperada? Porque permite que nascemos num mundo dilacerado pela guerra, pelo ódio e pela raiva?”.
Job não é uma pessoa resignada. Não sofre em silêncio, mas manifesta a sua dor perante o Senhor e pede contas das desventuras que é obrigado a suportar. O seu grito quase que nos assusta: parece um grito de revolta, uma blasfémia. Mas não, é oração.
Diante do mal não nos é pedida a resignação. O ser humano pode e deve gritar, tem o direito de dizer a Deus que não entende por que o criou amante da vida e da alegria e depois o pôs num mundo de dor e de morte.

A oração de Job é feita de gritos e de lágrimas. Quem chora e grita a sua dor, mesmo que não dê conta, está a invocar a Deus, a pedir-lhe luz e força.



Evangelho
O Ev de hoje apresenta-nos como Deus, na pessoa de Seu Filho, encara a questão do mal e como se confronta com o mal.
Somos invadidos pelas intemporais questões: Deus pode ou não intervir na história do homem? Como pode Deus permitir as inúmeras desgraças? A objecção que muitas vezes que nós, crentes, ouvimos é: “Diz ao teu Deus que isto é impossível. Ou Ele não tem nada a ver com o mal ou então é muito mau”.
Nesta confrontação com o mal, Deus não procura nem dá explicações teológicas; não se questiona sobre o porquê das desgraças, das doenças e das dores que co-habitam no mundo. Perante os dramas do mundo é inútil culpar Deus ou as pessoas: a única coisa a fazer é pôr-se ao lado de quem sofre e lutar, com todas as forças, contra o mal.

1. «Falam com Jesus». É isto que os discípulos são convidados a fazer: antes de resolverem um
problema, antes de prepararem respostas e proporem soluções, antes de tentarem gerir situações emaranhadas, devem «falar com Jesus», dialogar com Ele.
2. Nele é possível contemplar a resposta de Deus ao problema do mal. Deus não é indiferente ao grito de dor da humanidade, porque também Ele sofre, chora, comove-se, experimenta os sentimentos de uma mãe. Ouve os lamentos e vem partilhar a nossa condição humana, feita de sofrimento e de dor. Coloca-se a nosso lado na luta contra o mal e ensina-nos a transformá-lo numa oportunidade para construir o amor (“Há males que vêm por bem”).
3. Jesus em oração. A oração não uma fuga às dificuldades da vida, não é um ingénuo pedido de milagres, mas é o encontro com aquele que nos ajuda a ver a pessoa e os seus problemas assim como Ele os vê.
4. «Todos te procuram!». Procuravam Jesus, mas pelo motivo errado: pretendiam que Ele continuasse a realizar prodígios, queriam instrumentalizá-lo para realizarem os seus sonhos de sucesso, para atingirem a popularidade e obterem as consequentes vantagens. Não queriam assumir as suas responsabilidades de realizarem a obra que só a eles dizia respeito



Conclusão:
- Job prefere falar e queixar-se, do que culpabilizar Deus. Esta é a grande diferença que há entre Job e os existencialistas agnósticos como Bayle, Ivan Karamamazov, Paul Satre, Camus, etc., que tanto respeitaram Deus que acabaram por O negar.
Também Job se acha rodeado de obscuridades e não atina com o problema de Deus e da sua justiça, mas no meio da crise mantém firme a fé. Aqui radica, precisamente, toda a tensão do Livro de Job: como harmonizar a fé num Deus justo com o problema do mal.

- Deus não se quer substituir ao homem: guia-o com a luz da Sua Palavra, acompanha-o com a Sua presença, mas quer que seja o próprio homem a agir e a combater o mal.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

«O homem é um lobo para o homem»


«O homem é um lobo para o homem[1]»

Sem querer ser como o nosso “Velho do Restelo”, tenho que reconhecer que o homem hodierno se encontra perdido de si mesmo e em si mesmo. O caminho presente e futuro tem que passar, necessariamente, pelo desenvolvimento de uma base moral. Uma sociedade que se degrade moralmente, sepulta-se. Há que formar a pessoa para discernir o que é o bem e o que é o mal; que se apoie no progresso humano e científico, mas que não se entregue à cultura da vida fácil, enveredando por caminhos do prazer sem limites.

Segundo Henrique Rojas, o homem actual é um homem “light”: «É um homem frio, que não crê em quase nada; as suas opiniões mudam rapidamente e vive afastado dos valores transcendentes». Esta é razão pela qual ele se torna cada vez mais vulnerável. Por outras palavras, este homem caiu numa certa incapacidade de defesa. Deste modo, este homem é facilmente manipulável. O consumismo, tendo em si uma forte raiz na publicidade massiva e na oferta bombardeante, cria em nós falsas necessidades. E para este homem vulnerável, tudo é necessário. Aliás, falsas necessidades.

Hoje somos convidados a mudar de rumo. Caso contrário, corremos o perigo de iniciarmos uma desintegração, progressiva e ascendente, de toda a estrutura ôntica da nossa existência. No “Antígona” de Sófocles é-nos dito que «muitas coisas grandiosas vivem, mas nada é superior ao homem em majestade». Já Protágoras afirmava que «o homem é a medida de todas as coisas». Também no livro dos Génesis, Deus vê que toda a criação é boa, mas quando cria o homem reconhece que toda a criação era «muito boa» (cf. Gn 1). O homem é este mistério grandioso de bondade e amor. De facto, é triste verificar que esta humanidade não re-conhece os caminhos que anda a trilhar. Pior, não sabe para onde vai. Isto significa que está perdida, sem rumo, desorientada. A este respeito temos dois casos bem elucidativos: nos jovens, a droga; e nos adultos, as rupturas conjugais.

Se não, vejamos o caso da televisão de hoje. A esta não lhe convém ter uma programação que imprima ao telespectador uma experiência profunda, antes querem que o telespectador se distraia, passe bem e não se aborreça, garantindo audiências. Não pretende fomentar as grandes tarefas como educar, ou estimular um tipo de homem mais culto, ou elevar o nível das inquietações do telespectador, mas somente manter as pessoas entretidas. E quando há demasiada concorrência, há que ganhar audiências seja a que custo for. É aqui que entra o sexo, a pornografia, os concursos vulgares e simplistas, as telenovelas e um largo etcétera nesta linha pobre e insubstancial. E o mais grave é que a televisão constitui para a maior parte quase todo o alimento intelectual.

Nesse sentido, ao telespectador do “zapping” interessa tudo e, simultaneamente, nada. Utiliza o “zapping” para relaxar, para se esquecer das suas tensões e problemas do trabalho. O que ele quer é passar o tempo sem mais complicações, tal e qual à mulher dependente das revistas sentimentalistas ou a denominada “imprensa cor-de-rosa”. Esta literatura, se assim a podemos denominar, não impõe nenhum esforço intelectual, já que 90% são fotos e o resto é um texto mínimo ou os pés da foto que substituem as antigas legendas de Banda Desenhada: parecem os «desenhos animados dos adultos» (H. Rojas). Estas pessoas dir-nos-ão: “estas revistas servem para passar o tempo”. E passar o tempo significa, por um lado, que não têm grandes inquietações e, por outro, que não têm grandes ideais.

Alcança-se, assim, um topo desolador e terrível: «a socialização da imaturidade» (H. Rojas). Esta define-se mediante três ingredientes, a saber: desorientação, inversão de valores e um grande vazio espiritual.

Que fazer, então? Há que lutar com todas as forças para vencer esta vida “light”, porque conduz a uma existência vazia. Façamos como o alpinista: escalar exige esforço e um trabalho duro até chegar ao cume; porém, vale a pena. Porque se a vida é concebida como algo adocicado, brando, ou simplesmente concebida desde o ponto de vista hedonista, cometemos, portanto, um grande erro. Na verdade, nem isso é vida, nem isso se pode interpretar assim. Com efeito, há que voltar a recuperar o sentido autêntico do amor à verdade, bem como recuperar a paixão da liberdade autêntica. Ao encontrá-las, encontramos verdadeiramente a presença amorosa e actuante de Deus.


[1] «Homo lupus hominis» (Tomás Hobbes)

segunda-feira, outubro 27, 2008

Num último suspiro...


«Uma amizade que, no início, parecia promissora e vivificante fez que, pouco a pouco, me afastasse mais e mais do lar, até ficar completamente obcecado. Do ponto de vista espiritual, vi que, para manter viva aquela amizade, estava a dissipar tudo o que recebera do meu Pai. Já não era capaz de rezar. Perdi o interesse pelo meu trabalho e cada vez me era mais difícil atender os problemas dos outros. Apesar de dar conta de quão destrutivos eram os meus pensamentos e os meus actos, continuava escravo do meu coração, faminto de amor e à procura de falsos caminhos para conseguir a minha própria auto-estima.
Então, quando aquela amizade se quebrou definitivamente, tive que escolher entre destruir-me e acreditar que o amor que procurava existia realmente…” em casa”! Uma voz, uma voz muito débil, sussurrou-me que nunca nenhum ser humano seria capaz de me dar o amor que procurava […]. Aquela voz suave, mais insistentemente, falou-me da minha vocação, dos meus primeiros compromissos, dos muitos dons que recebi na casa do meu Pai. Aquela voz chamou-me “filho”.
A angústia do abandono foi tão forte que me era muito difícil, quase impossível, acreditar nessa voz […]. Por fim, fui para um local para onde pudesse estar sozinho. Ali, na solidão, comecei a caminhar para casa, lentamente, hesitante, ouvindo cada vez mais nitidamente a voz que dizia: “Tu és o meu filho muito amado; em Ti pus todo o meu enlevo”».

Henri Nouwen

sexta-feira, outubro 24, 2008

Pessimismo


Desejos e frustrações, assim é a nossa vida.
Multiplicam-se os projectos e os sonhos,
mas reduzem-se a nada.
A vida é curta e passageira, a vida é triste e sombria.
Tudo parece contra nós,
mas uma coisa é certa:
a presença real de Deus.

Andamos sós e desamparados.
Pelo menos assim o pensamos e sentimos.
Porém, quem se afastou não foi Deus,
mas sim o nosso coração.
Foi o nosso coração que se afastou d'Ele.

Tal como a semente para germinar é
necessário que seja lançada à terra,
assim também nós somos convidados
a caminharmos ao encontro de Deus.

É difícil?
O que é que não é difícil?
Tudo aquilo que é valioso
traz consigo problemas e sofrimentos.
No entanro, são estas maleitas
que dão o verdadeiro gosto
e o devido valor.

terça-feira, setembro 23, 2008

O Estado: ao serviço da vocação?


Pergunta pertinente, sem dúvida. De facto, este é o grande drama do nosso tempo. Sendo a vocação uma realidade constitutiva à pessoa humana e um chamamento de Deus, torna-se necessário que cada pessoa humana individualmente encontre aquilo a que é chamado a ser. Pois a vocação conduz-nos à felicidade e à nossa mais íntima realização. Onde está a nossa vocação está igualmente a nossa felicidade, e vice-versa.
Nesse sentido, compete ao Estado, como entidade promotora da vocação, criar espaços não só de reflexão pessoal sobre a vocação do cada cidadão, como também proporcionar que cada cidadão se realize na sua vocação. Para tal, é urgente que cada um possa exercer a nível profissional aquilo a que é ontologicamente chamado a ser e a realizar. É este o papel do Estado: proporcionar e possibilitar que cada cidadão encontre e exerça a sua vocação, de modo a que este se sinta plenamente realizado e, consequentemente, encontre felicidade.
Infelizmente, verificamos que inúmeros cidadãos que não são felizes. Não o são por uma simples razão: não encontraram ou não exercem a sua vocação. E quando assim é, estes cidadãos não só não produzem como também não se realizam plenamente como seres humanos em comunidade. Por exemplo, se eu me sinto vocacionado para ser professor de matemática, mas por razoes externas sou como que obrigado a ser professor de história, certamente eu não renderei o mesmo caso ensinasse matemática. É aqui que o Estado deve actuar. Antes de o aluno entrar na Universidade, o Estado deveria fazer, juntamente com os alunos em causa, um discernimento vocacional de modo que cada um pudesse ser realmente feliz. E, em termos económicos, estes cidadãos renderiam bem mais. Fica a questão: será que o Estado e o nosso sistema educativo escolar estão ao serviço da vocação?

Somos testemunhas de quê?


Somos testemunhas de quê?
O ardor missionário de S. Paulo



A partir da proposta do Papa Bento XVI que proclamou este ano um “Ano Paulino”, para celebrar os 2000 anos do nascimento de São Paulo, torna-se conveniente abordarmos o imperativo missionário que todo o baptizado é chamado a realizar em Igreja. Em virtude do Baptismo, todo o fiel leigo é vocacionado e chamado à missão. Em Paulo todos nós encontramos um modelo missionário que foi capaz, em virtude/sob da acção do Espírito Santo, de alargar o horizonte dos destinatários do Evangelho. Quando o Evangelho chega ao mundo greco-romano, igualmente conhecido pelo povo judeu como mundo pagão ou gentios, a Igreja primitiva é abalada por uma onda de questões que giram em torno do seguimento ou não dos preceitos do judaísmo: será que a Boa Nova dirigia-se somente ao povo judeu ou será que os pagãos também seriam destinatários desta Boa Nova?
Um judeu convertido a Jesus Cristo deveria sujeitar-se à circuncisão e obedecer às normas legais do povo judaico? Ou será que um pagão convertido, que passa a pertencer de imediato ao Povo de Deus, deve obedecer às leis especificamente judaicas?
Este alargamento do horizonte missionário foi-nos desafiado pelo saudoso Papa João Paulo II, à qual chama de nova evangelização. Hodiernamente a Igreja corre o risco de reduzir o seu campo de acção pastoral e missionário e limitar o anúncio da Boa Nova, de Jesus Cristo, àqueles que continuam no seu redil. É sempre mais fácil trabalhar com aqueles que entendem a nossa linguagem, que estão sempre disponíveis para nos ouvirem e para cooperarem connosco. Mas que sentido apostólico e missionário é este? Na verdade, não é nenhum. É necessário desinstalarmo-nos: necessitamos de renovar e de alargar do nosso horizonte. Parece que os nossos cristãos têm medo ou até alguma dificuldade em anunciar Jesus Cristo a uma sociedade cada mais secularizada e indiferente. A sociedade actual, apesar de haver uma separação cronológica e histórica, contém inúmeras coincidências e traços comuns: ambas estão marcadas por uma religiosidade cada vez mais pagã do que cristã; uma superstição que conduz a fanatismos religiosos e à ausência ôntica de Deus na vida pessoal de cada um e de cada um em comunidade; estão profundamente marcadas pelo hedonismo e pelo materialismo, “reduzindo o problema de Deus ao arbítrio e à decisão humana, fiel a ritos, mas incapaz de reconhecer o Deus vivo e transcendente” (CEP, nº2, 2008). Porém, em ambas as realidades sociais existem sintomas de insatisfação, que poderão levar renovação vivificante propícia do Evangelho.
Nesse sentido, torna-se urgente alargar o anúncio do Evangelho aos descrentes e aos que abandonaram a vida cristã. Para tal é inevitável que haja evangelizadores com as características exigidas pela nova evangelização. Devem estar como que possuídos de um novo ardor, uma vez que o seu testemunho é um primeiro anúncio de natureza querigmática. Cada um de nós deve testemunhar aquilo que ama: se eu amo verdadeiramente Cristo, então o meu testemunho será expressão do rosto de Jesus Cristo; se eu não amo Cristo, então o meu testemunho é uma autêntica falácia daquilo que eu procuro apresentar como verdade – estaremos sempre dentro do campo do “acessório” e da imagem. O esquecimento do “ser” e a valorização excessiva do ter – evidente realidade da sociedade actual – conduz ao esvaziamento ôntico da vida humana, bem como a uma depreciação dos valores éticos e morais. Aliás, se repararmos com atenção, hoje poucas pessoas ou até nenhumas introduzem no seu vocabulário corrente o termo “virtude”. Parece que é preferível dizer “porreiro”, ou “espectacular” ou ainda “fixe”. É evidente a mutação filiológica com que nos deparamos. O homem de hoje dá a entender que não quer ser um ser virtuoso, de princípios e bases sólidas e estáveis. Tudo que implique mudança, compromisso e desinstalação as pessoas rejeitam. A razão é simples: estes três termos atrás mencionados obrigam as pessoas e crescerem, a saírem dos seus “cantinhos” e “mundinhos”, a sofrerem para depois colher. A palavra “sofrer” deve ser aqui entendida no sentido de que cada coisa, como por exemplo toda a caminhada que o pão faz para chegar às nossas mesas, tem o seu ritmo natural de crescimento e que implica trabalho, esforço e até bastante sofrimento para que essa coisa possa ser uma realidade. Daí que, todo o cristão não pode pensar que evangelizar é uma realidade fácil. Antes de evangelizarmos temos que nos deixar livremente ser inundados pelo Evangelho, ser absorvidos e apaixonados por Cristo Jesus. Por isso, e como atesta a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), “evangelizar não é uma estratégia e não se reduz a um programa: é uma paixão de amor por Jesus Cristo e pelos nossos irmãos e irmãs”.
Na verdade, só quem se converte real e verdadeiramente a Jesus Cristo é que pode ser evangelizador. Esta é a certeza e o imperativo máximo do processo evangelizador. É imprescindível que nós nos deixemos tocar por Cristo. Sem Ele qualquer acção é oca e vazia. A exemplo de S. Paulo, cada um de nós é chamado a deixar-se a possuir por Jesus Cristo de modo a poder cooperar activa, frutuosa e conscientemente no anúncio do Evangelho.
Fica a pergunta: somos testemunhas de quê? De mim mesmo ou de Deus?

Que tranquilidade?!


Pergunta pertinente, sem dúvida. De facto, este é o grande drama do nosso tempo. Sendo a vocação uma realidade constitutiva à pessoa humana e um chamamento de Deus, torna-se necessário que cada pessoa humana individualmente encontre aquilo a que é chamado a ser. Pois a vocação conduz-nos à felicidade e à nossa mais íntima realização. Onde está a nossa vocação está igualmente a nossa felicidade, e vice-versa.
Nesse sentido, compete ao Estado, como entidade promotora da vocação, criar espaços não só de reflexão pessoal sobre a vocação do cada cidadão, como também proporcionar que cada cidadão se realize na sua vocação. Para tal, é urgente que cada um possa exercer a nível profissional aquilo a que é ontologicamente chamado a ser e a realizar. É este o papel do Estado: proporcionar e possibilitar que cada cidadão encontre e exerça a sua vocação, de modo a que este se sinta plenamente realizado e, consequentemente, encontre felicidade.
Infelizmente, verificamos que inúmeros cidadãos que não são felizes. Não o são por uma simples razão: não encontraram ou não exercem a sua vocação. E quando assim é, estes cidadãos não só não produzem como também não se realizam plenamente como seres humanos em comunidade. Por exemplo, se eu me sinto vocacionado para ser professor de matemática, mas por razoes externas sou como que obrigado a ser professor de história, certamente eu não renderei o mesmo caso ensinasse matemática. É aqui que o Estado deve actuar. Antes de o aluno entrar na Universidade, o Estado deveria fazer, juntamente com os alunos em causa, um discernimento vocacional de modo que cada um pudesse ser realmente feliz. E, em termos económicos, estes cidadãos renderiam bem mais. Fica a questão: será que o Estado e o nosso sistema educativo escolar estão ao serviço da vocação?

sexta-feira, julho 04, 2008

sexta-feira, junho 06, 2008

A formação para o testemunho cristão


É errado pensar que o testemunho pode parecer uma mascara. Na verdade, o testemunho é sinónimo real e exemplar da comunhão, de uma comunhão em permanente relação. Assim, o primeiro testemunho de Jesus Cristo dá-se na consciência. A consciência é este centro de opções do sujeito em si mesmo, num diálogo permanente com Deus e com os homens, na radicalidade e na fidelidade (a vida tem um sentido): é abarcar toda a realidade existencial numa perspectiva de futuro em estabilidade e harmonia interior. Exige, portanto, uma postura de escuta da Palavra de Deus e o “feedback”.
Com efeito, o íntimo da pessoa, como espaço privilegiado da vivencia dos sentimentos e como personalização do coração, da consciência e da própria interioridade, é este santuário e lugar da vida nova no Espírito Santo. Viver esta vida nova é tornar visível e real este indubitável sinal do testemunho cristão. Deste modo, o testemunho é viver esta lei nova do Espírito: é aqui que entra o processo fundamental. Um processo que é simultaneamente antropológico, comunitário, social e cultural. Ser-se verdadeira testemunha do acontecimento pascal é ser alguém que é sujeito da sua própria vida: é ver a vida como um realizar-se sem acontecer.
Em suma, a interioridade ôntica do ser humano é o centro da lei nova e do Espírito Santo. E, como tal, este caminho e processo de maturidade e crescimento faz-se em comunhão em Igreja para o mundo, para todos.

terça-feira, maio 20, 2008

Reflexão dominical: Santíssima Trindade


Um dia, Moisés pede a Deus que lhe mostre o seu rosto, e Ele respondeu: «Tu não podes ver a minha face, pois o homem não pode contemplar-me e continuar a viver» (Ex 33, 18-20). O desejo de Moisés é a expressão do sonho de cada pessoa. Para responder a este desejo, Deus revela-se como o Senhor clemente e cheio de compaixão, paciente, misericordioso e fiel. Deus olha para as pessoas com ternura, compreende os seus erros e ama-as, sempre e incondicionalmente, mesmo quando pecam.
A sua principal característica é a misericórdia. Este termo hebraico designa as entranhas e indica o sentimento mais íntimo e profundo que se pode imaginar, o sentimento que experimenta uma mãe para com o filho que traz no ventre: «Acaso pode uma mãe esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu – o Senhor – o esqueceria» (Is 49, 15).
Por isso, quando ouvimos na Bíblia a palavra «castigo», ela significa um acto medicinal por parte de Deus. É, acima de tudo, um acto de amor e de misericórdia. Por curiosidade, a palavra «pecado» vem do latim pecco, que indica uma pessoa que caminha mal, que tropeça ou que se engana no caminho. Nenhuma pessoa psiquicamente sadia vai à procura de males. Todos nós aspiramos à felicidade e à alegria. No entanto, há pessoas que erram o objectivo e, como consequência, provocam desgraças, causam tragédias, magoam-se a si mesmas e às outras, e as consequências dos seus erros repercutem-se, por vezes, até mesmo nas gerações futuras.
Deus não pune quem erra, não acrescenta mais males aos que o homem já fez, Ele intervém apenas para salvar, para dar um remédio às desgraças provocadas pelo pecado.

Nesse sentido, entende-se o primeiro versículo do Evangelho. O evangelista descobre que na origem de tudo está o amor gracioso e gratuito de Deus. Um Deus que ama infinitamente o homem, que quer fazer com ele uma aliança, que quer fazer dele quase um ser divino, que quer oferecer a vida, a vida em plenitude, uma vida que nunca tem fim, uma vida que é a vida eterna.
Este nosso Deus não é um Deus justiceiro, frio, insensível, distante. Ele fez-se um de nós para nos redimir de todo o pecado. Ardentemente Ele anseia vir ao nosso encontro. E nós, será que O deixamos trabalhar no nosso coração? A partir do nosso baptismo, nós fomos configurados em Cristo. Por acção do Espírito Santo, participamos por gratuidade na filiação de Cristo, e somos, desde o baptismo, filhos de Deus. Assim, a nossa relação com Ele só poderá ser uma relação filial, de pai para filho ou de mãe para filho.

Nós somos irmãos. Nós, que pela graça do baptismo entramos na família de Deus, somos chamados, aqui e agora, a sermos sinais visíveis deste amor que brota de Deus.
Senhor, mostra-nos o teu rosto de modo a que possamos ser reais e visíveis testemunhas deste amor numa historia e numa humanidade tão marcada pela discórdia, pela dor e pelo sofrimento,

quinta-feira, maio 08, 2008

Ao que chegamos!

O que nos espera?




Chegam-nos informações surpreendentes sobre uma pseudo-renovação eclesial. De um lado temos os conservadores/nostálgicos que anseio por retomar o Missal de S. Pio V; por outro, temos os vanguardistas e fiéis à renovação conciliar operada no Vaticano II. Porém, o Secretário da Congregação para o Culto Divino veio a público afirmar a sua intenção de retomar os ritos implícitos ao Missal de Pio V. Mas por que razão nós estamos a retomar quatro sécs.? Que significado teve e tem o Concílio Vaticano II?
A meu ver, estamos a cometer um verdadeiro "atentado intelectual". O renovamento deve partir sempre da fonte. A este respeito, três são as fontes: a Sagrada Escritura, a Tradição e o Magistério. Portanto, não será o Concílio de Trento a referência primeira. Colocá-la como tal seria simplesmente ridículo! Seria uma clara estagnação no tempo! Onde fica, com efeito, a dimensão da análise dos sinais dos tempos? Trento respondeu (e bem!) a um contexto histórico no qual ele estava inserido. No entanto, o Vaticano II está ainda a responder aos sinais dos tempos actuais.
A nível pastoral e litúrgico corremos o risco de sermos sinal de contradição. Vejamos um exemplo: imaginemos que numa determinada paróquia se celebra a Eucaristia a partir do Missal de Paulo VI, e que na paróquia ao lado, o sacerdote celebra a partir do Missal de S. Pio V. Pode parecer até disparatada esta situação/exemplo, mas se vier acontecer como poderemos nós responder aos fiéis tal disparidade?! Ou ainda: onde fica a universalidade e a unidade eclesial?
Com razão diz um amigo meu que não tardará a estarmos no "período da luva". Ou seja, segundo ele, os bispos voltarão a usar luvas brancas, os fiéis voltarão a comungar de joelhos e em fila, o sacerdote voltará a celebrar de costas para o povo e em latim. Mas não estamos a negar a força máxima da Igreja? Não estamos a negar o Concílio? Não é ele em termos jurídicos a voz máxima da Igreja? Então, onde ficam as palavras do Concílio Vaticano II?
É uma autêntica "crueldade" ao renovamento eclesial do Vaticano II. É com enorme pesar que vejo o desabrochar de um movimente inter-eclesial anti-Vaticano II. Na verdade, o que será no futuro? O que nos reserva os desígnios de Deus para o futuro. Creio piamente que o Paráclito não abandonará a Igreja. Confiemos na acção vivificante e santificate do Espírito Santo. É sempre Ele, e toda a Santíssima Trindade, que opera a renovação e nos dá o maior dos dons: a vida em Cristo, uma filiação na Igreja para a Igreja. É este o dom da santidade.
Não neguemos os esforços de todos aqueles que sonharam, projectaram e concretizaram a renovação eclesial no acontecimento conciliar Vaticano II.

domingo, abril 13, 2008

Tributo


Se eu fosse compositor
Compunha em teu louvor
Um hino triunfal
Se eu fosse crítico de arte
Havia de declarar-te
Obra-prima à escala mundial
Mas eu não passo dum homem vulgar
Que tem a sorte de saborear
Esse teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar
Esse teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar

quinta-feira, abril 10, 2008

Homilia IV Domingo da Páscoa


Domingo do Bom Pastor
As Leituras deste domingo apresentam-nos a imagem do “Bom Pastor”. O que é o pastor? O pastor é um chefe e um companheiro. É um homem forte, capaz de defender o seu rebanho contra os animais selvagens; é também delicado com as suas ovelhas, conhecendo o seu estado, adaptando-se à sua situação, levando-as em seus braços, tendo sentimentos de ternura por cada uma delas como se fossem suas filhas. A autoridade do pastor é indiscutível, pois esta fundada na entrega e no amor.
No Evangelho de hoje, encontramos diversas imagens referentes à pastorícia. Uma delas é o aprisco: era um recinto circundado por muros de pedra, sobre os quais eram postos feixes de plantas espinhosas ou se deixavam crescer silvas para impedir que as ovelhas saíssem e os ladrões entrassem. É interessante assinalar que, no tempo de Jesus, juntavam-se os rebanhos, ficando um único pastor a tomar conta das ovelhas, enquanto os outros iam dormir. Mas pela manhã, quando cada pastor se aproximava da porta, as ovelhas reconheciam imediatamente os passos e a voz, levantavam-se e seguiam-no, certas de serem conduzidas a pastagens de erva fresca e a oásis com água pura e abundante. Seguiam-no porque se sentiam amadas e protegidas, o pastor nunca as tinha desiludido ou traído.
Cristo é o pastor perfeito porque dá a sua vida pelas ovelhas. Nesse sentido, o verdadeiro pastor tem uma característica única: a ternura. Ele conhece as suas ovelhas pelo nome e chama-as «cada uma delas». Para Jesus não existem massas anónimas. Ele interessa-se por cada um dos seus discípulos, tem em conta os seus talentos, as suas virtudes e as fraquezas de cada um. Jesus entende as dificuldades dos seus “filhos”, e, por isso, não antecipa os tempos, não impõe ritmos insustentáveis, mas considera a condição de cada um, ajudando-os e respeitando-os.
Por isso, Ele é a porta: «Eu sou a porta». «Eu sou»: nada mais é do que a afirmação da sua divindade, à imagem do «Eu Aquele que Sou». Quanto à porta, esta tem uma dupla função: deixa passar os donos da casa e impede a entrada aos estranhos. A porta impede a entrada dos ladrões e salteadores. Sabeis como é descrito no Evangelho a obra do ladrão? Ele rouba, mata e destrói. Três verbos, que no fundo, resumem as obras da morte. Pelo contrário, a acção do pastor é descrita de forma totalmente diferente: o pastor vem trazer a vida e vida em abundância.
Pela porta só passam os pastores, mas entram e saem também as ovelhas. Nesse sentido, só quem passa através de Jesus é que chega às pastagens verdejantes, encontra o pão que sacia e a água que brota para a vida eterna. Portanto, a Salvação está n’Ele e só n’Ele. Fora d’Ele, somos como «ovelhas desgarradas».
Jesus é a porta estreita porque pede a renúncia de cada um a si mesmo, o amor desinteressado pelos outros; mas é a única que conduz à vida, todas as outras são armadilhas, ratoeiras que levam a cair em abismos de morte: «larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele» (Mt 7, 13).

O homem: um ser vocacionado no Amor para o Amor


Todos na Igreja recebem uma vocação. Por isso, a Igreja convida-nos a viver intensamente esta Semana de Oração pelas Vocações. Falemos um pouco sobre o sentido e significado desta bela palavra.
A vocação, como realidade unitária na sua essência, não é uma realidade extrínseca ao homem e ao seu projecto de vida. Ela é antes um dom de Deus ao homem. Um dom que provém da bondade infinita e totalizante de Deus Uno-Trino. Mas o que é realmente a vocação? O que é ser vocacionado? O termo “vocação” provém do vocábulo latino “vocatione” que significa «o acto de ser chamado ou predestinado para um determinado fim; inclinação e predisposição para certo género de vida, profissão, estudo ou arte; tendência, talento». Portanto, a vocação é o acto amoroso de Alguém que chama o homem para a felicidade e para a sua plena e total realização. Esse Alguém é Deus. Nesse sentido, a vocação é um chamamento. Perante tal convite apenas duas são as respostas possíveis: ou sim ou não. Deus concede-nos a liberdade e é incapaz de ir contra a liberdade do homem. Pois se o fizesse estaria a negar-Se a Si mesmo. Nós, perante tal convite teremos de tomar uma decisão que traz consigo consequências: quer digamos sim, quer digamos não, esta decisão determinará o decorrer de toda a nossa vida e terá naturais implicações na conduta dos outros, dos nossos irmãos. Com efeito, a escolha nunca é isolada da comunidade: ela, porém, é sempre implicativa e determinativa, assumindo contornos de condicionabilidade na acção daqueles que me rodeiam.
Uma resposta livre e positiva a este chamamento traz inevitáveis consequências: a primeira é a de caminhar em direcção à felicidade e à própria realização pessoal; a segunda, e talvez a mais determinante, é a partilha deste dom (ou dons) que recebo. Ninguém desenvolve o seu dom se o enterrar na areia e se não o puser a render! Se eu recebo este dom como sinal indubitável de graciosidade, tenho o dever e a missão de o aplicar e de o reencaminhar no e para o serviço ao próximo, ao irmão, de modo a ser sinal real e vivificante da bondade amorosa e graciosa de Deus. Portanto, este chamamento traz consigo a responsabilidade e a co-responsabilidade, uma vez que o dom remete para o outro e para a partilha.
A vocação corre o risco de ser compreendida de um modo individualista e intimista, e não tanto como um dom, aparecendo como um direito que visa apenas a realização de um projecto pessoal de vida segundo critérios subjectivos e selectivos, e não segundo o critério evangélico de «perder a vida» por Cristo e pelo Reino. A vocação não é uma coisa. Aliás, no hebraico bíblico nem existe a palavra “coisa”. O dom “é dado”, e é precisamente o “ser dado” que constitui o seu ser. O dom remete para os outros, para o Doador e para o seu incondicional amor. Contrariamente, todo o acto de posse é solidão, pois faz-nos viver no meio de objectos. E este é o mundo do “coisismo” e do consumismo. É o mundo da solidão: do super ou do hipermercado.
Eu não sou dono da vocação: eu apenas recebo-a para a partilhar. Este reconhecimento implica, portanto, a desmontagem do nosso mundo de posse, interesse, auto-conservação, auto-realização e auto-satisfação, aquilo a que Levinas chama de «egoísmo alérgico», que no fundo são os nossos egoísmos.
Consciente de que foi escolhido por Deus desde sempre, o indivíduo que é chamado deixa-se envolver na aventura da relação e do amor. O chamado descobre os projectos de Deus, identifica-se com eles e aceita testemunhá-los no mundo. Portanto, o amor é a chave de todas as vocações: o ministério ordenado, a vida consagrada religiosa e secular, e a laical.
Todo o ser humano tem o desejo e necessita de conhecer o sentido da vida e do seu lugar na história. É uma proposta contínua que não acontece apenas uma vez na vida: é uma caminhada. Não é só para jovens, pois o convite do Senhor a segui-Lo dirige-se a todas as idades e a vocação considera-se plenamente realizada apenas no tempo da vida. A terminar, deixo o convite a que todos rezemos com perseverança ao «Senhor da Messe», de modo a suscitar múltiplas e fecundas vocações.

sábado, abril 05, 2008

Homilia III Domingo Páscoa


A Palavra de Deus deste domingo apresenta-nos Cristo a Luz dos caminhos, o pedagogo da fé. Ao lermos atentamente o Evangelho, depressa uma questão nos é provocada: por que não reconheceram eles, neste viajante, a pessoa de Jesus? Note-se que no texto não se diz que Jesus estava dissimulado sob outra aparência, mas que «os seus olhos eram incapazes de O reconhecerem», e será importante determinar o motivo desta cegueira.
Se repararmos atentamente apercebemo-nos que os discípulos estavam tristes, desanimados e desalentados. Tinham depositado em Jesus todas as suas esperanças. Isto é um claro e evidente sinal de que quem não está em Deus anda triste, angustiado e completamente desanimado. No entanto estes discípulos foram incapazes de compreender o porquê da morte de Jesus! Sabeis porquê? Nesta época os judeus pensavam que o Messias seria um grande rei e que destronaria o poder vigente. Era o denominado messianismo real. A par dos discípulos de Emaús, o próprio Judas tinha esta mesma ideia. Mas rapidamente se apercebe que o Messias não traz a desordem e a guerra, mas antes o amor e a misericórdia.
Por isso eles deixam a comunidade e vão para as suas terras. É este desalento que os acompanha. Eles abandonam a comunidade. Incapazes de crerem nas palavras das mulheres e de Pedro quando afirmam que Jesus havia retornado dos mortos, vão-se embora angustiados. Vede como eles eram incrédulos e «sem inteligência e lentos de espírito». O abandono da comunidade é o maior erro que qualquer crente pode cometer! Mas isto acontece com alguma frequência. E é interessante verificar que o escritor sagrado introduz em cena Jesus Cristo, apresentando-o como um mero caminhante. Ao iniciarem o diálogo, os discípulos de Emaús ficam admirados como é que aquele caminhante não sabia o que acontecera em Jerusalém. E é neste momento que Jesus assume-se como o único e verdadeiro Pedagogo. Ensinar-lhes-á toda a Escritura, mas mesmo assim eles continuam com cegos. Quantas vezes nós estamos cegos, apesar de ouvirmos a Palavra de Deus todos os domingos?
Esta cegueira é fruto de uma ilusória criação intelectual, ou seja, digamos que se deve a uma esperança construída sob a razão humana. Por isso andam angustiados e desalentados. Ausência de Deus é ausência da alegria e da felicidade. Porém, Deus não nos abandona como presas indefesas perante os dentes do predador. Ele acompanha-nos nesta caminhada de forma pedagógica: vai-nos gradualmente abrindo os olhos de modo a podermos reencontrar a felicidade e alegria. Daí que toda a caminhada é revelação. Todos os nossos caminhos são acompanhados por Deus. Nós somos como um copo onde Deus o vai enchendo-o; quando transborda entramos na cegueira e no mistério. Mas pela fé, e nunca pela razão, penetramos neste mistério de amor.
Quando os seus olhos descobrem Jesus, imediatamente pedem a Jesus que fique com eles. Apercebem-se que é Ele quando parte o pão: é a redescoberta da gratuidade e do dom. Reconhecer Jesus nos irmãos é fruto da doação de mim mesmo. Na medida em que eu partilho, eu encontro no irmão o rosto do Cristo ressuscitado. E ao reencontrar Jesus eu simplesmente retorno à comunidade, para celebrar a Eucaristia, celebrar a Páscoa.

A Ignorância de si mesmo como impossibilidade do relacionamento com Deus e com os outros (III)



Não nos podemos esquecer, porém, do mais importante: Deus. Confiados à sua Graça, o homem estabelece relações com Deus. Na verdade, é sempre Deus que vem ao encontro do homem; é sempre Ele a tomar a iniciativa do encontro e do diálogo. Não tenhamos a ilusão de sermos capazes, por nós próprios, de ir ao encontro d’Ele e que, com isso, tenhamos a possibilidade possibilitante de estabelecer relações por meio das nossas capacidades cognitivas. Isto é absolutamente errado! Nunca poderemos ir ao encontro d’Ele se Ele não vier primeiramente estabelecer a base relacional e a ponte de contacto para tal. Mas não fiquemos com medo. Deus ama-nos de tal maneira que constantemente quer implantar connosco elos de ligação e espaços relacionais. É um amor incomensurável que anseia caminhar, lado a lado, com o homem rumo à santidade e à felicidade. Muito mais poderíamos dizer desta oblatividade amorosa de Deus, mas neste momento interessa-nos, apenas, dizer que a nossa relação com Deus é uma relação perfeita. Uma questão se coloca: como pode ser perfeita esta relação se eu sou, por natureza, imperfeito? Toda a nossa relação com Ele é perfeita porque Ele mesmo é Amor, tal como afirma S. João (cf. 1 Jo 4, 8). E como pelo amor se estabelece esta perfeição relacional, a nossa relação com Ele será sempre perfeita. Contudo, e respondendo novamente à questão, a imperfeição está nos modos de expressão da mesma. O modo de exprimir e a própria expressão da relação é que é sempre imperfeita. Com efeito, dada à gratuidade oblativa e filial de Deus, nós temos um sentimento de amor por Deus, pois, reconhecendo quem somos e o que somos, este amor torna-se dialógico porque Deus ama-nos tal qual como somos, mas exige de nós a fidelidade à Sua Palavra e aos Seus Mandamentos, uma perseverança em que Ele nos auxilia com os Sacramentos e uma adesão total e totalizante de nós a Ele por meio da conversão.
Dentro da alteridade, ou simplesmente das relações que estabelecemos com o outro, a questão do si mesmo é fundamental. É dentro da dinâmica existente entre a união possibilitante do “si mesmo real” e do “si mesmo ideal”, que todo homem caminha com. Ora, nós caminhamos não com um Algo, mas com um Alguém; ninguém caminha, ou por outras palavras, amadurece per se (ou por si), mas vai atingindo a maturidade por meio da relação, de uma relação que se pode revestir sob múltiplas referências relativas (relativas no sentido de relação): relação “consigo mesmo” (que é a auto-estima), com o Outro (com a divindade: Deus), com os outros, e com as coisas. Como todos sabemos, o homem é um ser relacional por natureza; é da sua própria natureza relacionar-se com tudo aquilo que o envolve. Torna-se oportuno dizer que todos os homens, sem a excepção de nenhum, estão vocacionados à e para a relação.
Portanto, só na medida em que nós somos capazes de nos amarmos e aceitarmos a nós próprios é que seremos capazes, igualmente, de amar e aceitar os outros. Daí a importância do filão ético hebraico: quanto mais eu caminho para Deus, mais eu caminho para os outros, e vice-versa. Assim sendo, a felicidade está em amar e aceitar o outro tal como ele é, pois no outro está espelhado o próprio rosto de Cristo. Como poderemos intitularmo-nos cristãos se não amamos o nosso irmão (ou, igualmente, o outro)? Não são eles, em virtude do baptismo, filhos de Deus como eu, participantes na única filiação, a filiação de Jesus Cristo? E como poderemos amar a Deus se não nos amamos a nós mesmos e ao nosso irmão? Exige para tudo isto conhecermo-nos a nós mesmos.

quarta-feira, março 05, 2008

Homilia V Domingo - Quaresma


Este texto de Ez é das poucas afirmações bíblicas da crença na ressurreição. Tenhamos presente que o profeta se situa, historicamente, depois do ano de 597 a. C. Neste período, o Povo Judeu fora deportado para a Babilónia; vivia-se entre eles um sentimento de dor de tal maneira profundo que pensavam que Deus os tinha abandonado para sempre. E é então que Deus lhes diz «Hei-de fixar-vos na vossa terra e reconhecerei que Eu, o Senhor, digo e faço». Esta profecia não se referia à ressurreição dos mortos na forma como entendemos nós. Mas ao regresso dos deportados à pátria. Por isso, Deus diz-lhes: «Vou abrir os vosso túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos conduzir à terra de Israel». Isto é, antes de mais, um sinal de esperança para cada um de nós. Pois, onde quer que o Espírito do Senhor entre, a vida também entra. Isto aconteceu já no início da criação quando Deus cria o homem: depois de o ter plasmado com o pó da terra, insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida (ruah) e o homem tornou-se um ser vivo. A vida, portanto, não é só mera vida biológica ou vegetativa. Ela é muito mais do que isso. Ela impele-nos para uma outra realidade trans-mundana, para realidades marcadas pela transcendência.

Nesse sentido, Cristo apresenta-se como sendo a vida. Este relato do Evangelho não quer falar da ressurreição de Lázaro! Este relato, antes de tudo, fala da reanimação de Lázaro. Porque reanimação? Ele já estava morto, mas recebeu novamente este influxo de vida por meio do Espírito de Senhor. Ele voltou à vida, mas voltará a morrer. Caso se tratasse de uma ressurreição como entenderíamos a ressurreição de Jesus Cristo? Não perderia toda a sua razoabilidade? Ora, uma coisa é voltar a este mundo, retomar esta vida material marcada ainda pela morte; outra coisa é deixar definitivamente esta vida e, como aconteceu com Jesus na Páscoa, entrar no mundo de Deus, onde a morte simplesmente não tem acesso.
Ao analisarmos o texto verificamos que Jesus veio a saber por intermédio de outros que seu amigo Lázaro tinha morrido. Perante esta fatídica noticia, Jesus diz aos discípulos que Lázaro apenas está a dormir. Mais uma vez os discípulos não perceberam o que Cristo queria dizer com estas palavras: «Senhor, se dorme, estará salvo». Jesus referia-se à morte de Lázaro, mas eles entenderam que falava do sono natural.
É então que Ele vai ter com Marta e Maria, irmãs de Lázaro, a Bêtania. Ao saberem que o Senhor as tinha ido visitar contaram-lhe o que estava a suceder. Como que em tom de desabafo, Marta diz a Jesus: «Senhor, se estivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido». Jesus, como mostra o Ev emociona-se! Esta passagem mostra o quanto Jesus Cristo é verdadeiro homem. Mas mostra ainda mais que o próprio Deus se emociona. Só se emociona quem tem sentimentos, certo?! Mas este sentimento traz consigo outro sentimento ainda mais profundo: o amor. É tal o amor que Deus nutre por cada um de nós que constantemente nos reanima para a vida. O que é o sacramento da Penitencia senão isso mesmo? É, como dizias os Pe da Igreja, a segunda tábua de salvação. Cada vez que nos confessarmos estamos a limpar todo o pecado que em nós existe, mas também estamos a receber pela força da graça a nova vida que nos conduz à ressurreição.
Ele declara: «Quem acredita em mim nunca morrerá». Que significam estas palavras?

Vamos supor que no seio de uma mãe há dois gémeos que podem ver, entender, falar um com o outro durante os nove meses de gestação. Eles apenas conhecem o seu pequeno mundo e não imaginam como possa ser a vida fora deste ambiente. Não sabem que as pessoas casam, trabalham e viajam, não têm ideia de que existam animais, plantas e flores. Conhecem apenas a forma de vida que experimentam. Passados 9 meses nasce o primeiro gémeo. O que ficou ainda por um breve instante no seio materno pensa: «o meu irmão morreu, já não existe, deixou-me…» … e chora. Porém, o irmão não morreu. Simplesmente deixou uma vida limitada e breve, e entrou numa nova forma de vida.

Na perspectiva cristã, portanto, a vida neste mundo é uma gestação, e a morte é vista por quem fica, e não por quem morre (Falar em Levinas). Então podemos compreender por que motivo Jesus se alegra por não ter impedido a morte de Lázaro. Jesus vê-a na óptica de Deus: vê-a como o momento mais importante e mais feliz para o homem. Com uma expressão muito justa, os cristãos na antiguidade chamavam «dia do nascimento» (dia natalis) àqueles que partiam para junto do Pai.
É celebre a frase de Lao-Tsé : «Aquilo que para a larva é o fim do mundo, para o resto do mundo é uma borboleta». A larva não morre. Desaparece como larva, mas continua a viver como borboleta. Torna-se noutra realidade muita mais bela.


Por isso, S. Paulo na 2ª Leitura diz que nós já não apenas vivemos sob o influxo da carne, mas, sobretudo, sobre o influxo do Espírito. Apesar da nossa mutabilidade e finitude, o espírito permanece imutável, e permanece por causa da justiça. É este Espírito que recebemos no Baptismo (e Confirmação) que nos faz ser imortais, isto é, a morte fisiológica não é o fim da vida, pois a vida plena acontece apos esta morte biológica. É em virtude deste Espírito que somos agraciados com a imortalidade. É um dom de Deus: Ele quer que sejamos o máximo possível imagens de Deus.


«Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?» (Marta).
E vós acreditais?