sexta-feira, fevereiro 06, 2009

V Domingo Tempo Comum (B)

V Domingo
Tempo Comum (B)



Tema: o mal existe e não é invisível.

Porque é que o homem está destinado a sofrer? A resposta tradicional judaica a este enigma é a denominada “doutrina da retribuição” que Elifaz, o amigo de Job, assim sintetiza: «Qual o inocente que já pereceu? Ou quando foram exterminados os justos? Sempre vi que os que praticam a iniquidadee semeiam a maldade colhem os seus frutos». Contudo, a vida desmente de forma impiedosa este dogma da fé judaica, evidenciando a sua ingenuidade, o aspecto provocatório e a insolência em relação a quem sofre.
O mal existe, não devendo ser explicado, mas antes combatido.

I Leitura
O protagonista é Job que, inicialmente rico e feliz, é atingido de forma imprevista pela desventura: perde os filhos, os bens, a saúde; sofre devido a uma chaga maligna, “desde a ponta dos pés às pontas do cabelo”. Até a esposa é tomada pelo desgosto, e dando livre curso à sua raiva irreprimível, grita-lhe: “Persistes ainda na tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre de um vez!”.
A leitura de hoje contém uma célebre reflexão sobre a mutável condição da pessoa: a vida não é mais do que dor; o ser humano é um escravo, submetido a sacrifícios imensos dos quais não tira qualquer proveito. É um texto claramente existencialista.
Perante uma situação de desespero existencial e ôntico, rapidamente somos impulsionados a colocar imensas questões do foro existencial que nos fazem sentir o abandono de Deus e, de algum modo, a revolta para com Deus: “Porque é que Deus me colocou numa situação destas? Porque razão me coloca numa situação tão desesperada? Porque permite que nascemos num mundo dilacerado pela guerra, pelo ódio e pela raiva?”.
Job não é uma pessoa resignada. Não sofre em silêncio, mas manifesta a sua dor perante o Senhor e pede contas das desventuras que é obrigado a suportar. O seu grito quase que nos assusta: parece um grito de revolta, uma blasfémia. Mas não, é oração.
Diante do mal não nos é pedida a resignação. O ser humano pode e deve gritar, tem o direito de dizer a Deus que não entende por que o criou amante da vida e da alegria e depois o pôs num mundo de dor e de morte.

A oração de Job é feita de gritos e de lágrimas. Quem chora e grita a sua dor, mesmo que não dê conta, está a invocar a Deus, a pedir-lhe luz e força.



Evangelho
O Ev de hoje apresenta-nos como Deus, na pessoa de Seu Filho, encara a questão do mal e como se confronta com o mal.
Somos invadidos pelas intemporais questões: Deus pode ou não intervir na história do homem? Como pode Deus permitir as inúmeras desgraças? A objecção que muitas vezes que nós, crentes, ouvimos é: “Diz ao teu Deus que isto é impossível. Ou Ele não tem nada a ver com o mal ou então é muito mau”.
Nesta confrontação com o mal, Deus não procura nem dá explicações teológicas; não se questiona sobre o porquê das desgraças, das doenças e das dores que co-habitam no mundo. Perante os dramas do mundo é inútil culpar Deus ou as pessoas: a única coisa a fazer é pôr-se ao lado de quem sofre e lutar, com todas as forças, contra o mal.

1. «Falam com Jesus». É isto que os discípulos são convidados a fazer: antes de resolverem um
problema, antes de prepararem respostas e proporem soluções, antes de tentarem gerir situações emaranhadas, devem «falar com Jesus», dialogar com Ele.
2. Nele é possível contemplar a resposta de Deus ao problema do mal. Deus não é indiferente ao grito de dor da humanidade, porque também Ele sofre, chora, comove-se, experimenta os sentimentos de uma mãe. Ouve os lamentos e vem partilhar a nossa condição humana, feita de sofrimento e de dor. Coloca-se a nosso lado na luta contra o mal e ensina-nos a transformá-lo numa oportunidade para construir o amor (“Há males que vêm por bem”).
3. Jesus em oração. A oração não uma fuga às dificuldades da vida, não é um ingénuo pedido de milagres, mas é o encontro com aquele que nos ajuda a ver a pessoa e os seus problemas assim como Ele os vê.
4. «Todos te procuram!». Procuravam Jesus, mas pelo motivo errado: pretendiam que Ele continuasse a realizar prodígios, queriam instrumentalizá-lo para realizarem os seus sonhos de sucesso, para atingirem a popularidade e obterem as consequentes vantagens. Não queriam assumir as suas responsabilidades de realizarem a obra que só a eles dizia respeito



Conclusão:
- Job prefere falar e queixar-se, do que culpabilizar Deus. Esta é a grande diferença que há entre Job e os existencialistas agnósticos como Bayle, Ivan Karamamazov, Paul Satre, Camus, etc., que tanto respeitaram Deus que acabaram por O negar.
Também Job se acha rodeado de obscuridades e não atina com o problema de Deus e da sua justiça, mas no meio da crise mantém firme a fé. Aqui radica, precisamente, toda a tensão do Livro de Job: como harmonizar a fé num Deus justo com o problema do mal.

- Deus não se quer substituir ao homem: guia-o com a luz da Sua Palavra, acompanha-o com a Sua presença, mas quer que seja o próprio homem a agir e a combater o mal.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

«O homem é um lobo para o homem»


«O homem é um lobo para o homem[1]»

Sem querer ser como o nosso “Velho do Restelo”, tenho que reconhecer que o homem hodierno se encontra perdido de si mesmo e em si mesmo. O caminho presente e futuro tem que passar, necessariamente, pelo desenvolvimento de uma base moral. Uma sociedade que se degrade moralmente, sepulta-se. Há que formar a pessoa para discernir o que é o bem e o que é o mal; que se apoie no progresso humano e científico, mas que não se entregue à cultura da vida fácil, enveredando por caminhos do prazer sem limites.

Segundo Henrique Rojas, o homem actual é um homem “light”: «É um homem frio, que não crê em quase nada; as suas opiniões mudam rapidamente e vive afastado dos valores transcendentes». Esta é razão pela qual ele se torna cada vez mais vulnerável. Por outras palavras, este homem caiu numa certa incapacidade de defesa. Deste modo, este homem é facilmente manipulável. O consumismo, tendo em si uma forte raiz na publicidade massiva e na oferta bombardeante, cria em nós falsas necessidades. E para este homem vulnerável, tudo é necessário. Aliás, falsas necessidades.

Hoje somos convidados a mudar de rumo. Caso contrário, corremos o perigo de iniciarmos uma desintegração, progressiva e ascendente, de toda a estrutura ôntica da nossa existência. No “Antígona” de Sófocles é-nos dito que «muitas coisas grandiosas vivem, mas nada é superior ao homem em majestade». Já Protágoras afirmava que «o homem é a medida de todas as coisas». Também no livro dos Génesis, Deus vê que toda a criação é boa, mas quando cria o homem reconhece que toda a criação era «muito boa» (cf. Gn 1). O homem é este mistério grandioso de bondade e amor. De facto, é triste verificar que esta humanidade não re-conhece os caminhos que anda a trilhar. Pior, não sabe para onde vai. Isto significa que está perdida, sem rumo, desorientada. A este respeito temos dois casos bem elucidativos: nos jovens, a droga; e nos adultos, as rupturas conjugais.

Se não, vejamos o caso da televisão de hoje. A esta não lhe convém ter uma programação que imprima ao telespectador uma experiência profunda, antes querem que o telespectador se distraia, passe bem e não se aborreça, garantindo audiências. Não pretende fomentar as grandes tarefas como educar, ou estimular um tipo de homem mais culto, ou elevar o nível das inquietações do telespectador, mas somente manter as pessoas entretidas. E quando há demasiada concorrência, há que ganhar audiências seja a que custo for. É aqui que entra o sexo, a pornografia, os concursos vulgares e simplistas, as telenovelas e um largo etcétera nesta linha pobre e insubstancial. E o mais grave é que a televisão constitui para a maior parte quase todo o alimento intelectual.

Nesse sentido, ao telespectador do “zapping” interessa tudo e, simultaneamente, nada. Utiliza o “zapping” para relaxar, para se esquecer das suas tensões e problemas do trabalho. O que ele quer é passar o tempo sem mais complicações, tal e qual à mulher dependente das revistas sentimentalistas ou a denominada “imprensa cor-de-rosa”. Esta literatura, se assim a podemos denominar, não impõe nenhum esforço intelectual, já que 90% são fotos e o resto é um texto mínimo ou os pés da foto que substituem as antigas legendas de Banda Desenhada: parecem os «desenhos animados dos adultos» (H. Rojas). Estas pessoas dir-nos-ão: “estas revistas servem para passar o tempo”. E passar o tempo significa, por um lado, que não têm grandes inquietações e, por outro, que não têm grandes ideais.

Alcança-se, assim, um topo desolador e terrível: «a socialização da imaturidade» (H. Rojas). Esta define-se mediante três ingredientes, a saber: desorientação, inversão de valores e um grande vazio espiritual.

Que fazer, então? Há que lutar com todas as forças para vencer esta vida “light”, porque conduz a uma existência vazia. Façamos como o alpinista: escalar exige esforço e um trabalho duro até chegar ao cume; porém, vale a pena. Porque se a vida é concebida como algo adocicado, brando, ou simplesmente concebida desde o ponto de vista hedonista, cometemos, portanto, um grande erro. Na verdade, nem isso é vida, nem isso se pode interpretar assim. Com efeito, há que voltar a recuperar o sentido autêntico do amor à verdade, bem como recuperar a paixão da liberdade autêntica. Ao encontrá-las, encontramos verdadeiramente a presença amorosa e actuante de Deus.


[1] «Homo lupus hominis» (Tomás Hobbes)

segunda-feira, outubro 27, 2008

Num último suspiro...


«Uma amizade que, no início, parecia promissora e vivificante fez que, pouco a pouco, me afastasse mais e mais do lar, até ficar completamente obcecado. Do ponto de vista espiritual, vi que, para manter viva aquela amizade, estava a dissipar tudo o que recebera do meu Pai. Já não era capaz de rezar. Perdi o interesse pelo meu trabalho e cada vez me era mais difícil atender os problemas dos outros. Apesar de dar conta de quão destrutivos eram os meus pensamentos e os meus actos, continuava escravo do meu coração, faminto de amor e à procura de falsos caminhos para conseguir a minha própria auto-estima.
Então, quando aquela amizade se quebrou definitivamente, tive que escolher entre destruir-me e acreditar que o amor que procurava existia realmente…” em casa”! Uma voz, uma voz muito débil, sussurrou-me que nunca nenhum ser humano seria capaz de me dar o amor que procurava […]. Aquela voz suave, mais insistentemente, falou-me da minha vocação, dos meus primeiros compromissos, dos muitos dons que recebi na casa do meu Pai. Aquela voz chamou-me “filho”.
A angústia do abandono foi tão forte que me era muito difícil, quase impossível, acreditar nessa voz […]. Por fim, fui para um local para onde pudesse estar sozinho. Ali, na solidão, comecei a caminhar para casa, lentamente, hesitante, ouvindo cada vez mais nitidamente a voz que dizia: “Tu és o meu filho muito amado; em Ti pus todo o meu enlevo”».

Henri Nouwen

sexta-feira, outubro 24, 2008

Pessimismo


Desejos e frustrações, assim é a nossa vida.
Multiplicam-se os projectos e os sonhos,
mas reduzem-se a nada.
A vida é curta e passageira, a vida é triste e sombria.
Tudo parece contra nós,
mas uma coisa é certa:
a presença real de Deus.

Andamos sós e desamparados.
Pelo menos assim o pensamos e sentimos.
Porém, quem se afastou não foi Deus,
mas sim o nosso coração.
Foi o nosso coração que se afastou d'Ele.

Tal como a semente para germinar é
necessário que seja lançada à terra,
assim também nós somos convidados
a caminharmos ao encontro de Deus.

É difícil?
O que é que não é difícil?
Tudo aquilo que é valioso
traz consigo problemas e sofrimentos.
No entanro, são estas maleitas
que dão o verdadeiro gosto
e o devido valor.

terça-feira, setembro 23, 2008

O Estado: ao serviço da vocação?


Pergunta pertinente, sem dúvida. De facto, este é o grande drama do nosso tempo. Sendo a vocação uma realidade constitutiva à pessoa humana e um chamamento de Deus, torna-se necessário que cada pessoa humana individualmente encontre aquilo a que é chamado a ser. Pois a vocação conduz-nos à felicidade e à nossa mais íntima realização. Onde está a nossa vocação está igualmente a nossa felicidade, e vice-versa.
Nesse sentido, compete ao Estado, como entidade promotora da vocação, criar espaços não só de reflexão pessoal sobre a vocação do cada cidadão, como também proporcionar que cada cidadão se realize na sua vocação. Para tal, é urgente que cada um possa exercer a nível profissional aquilo a que é ontologicamente chamado a ser e a realizar. É este o papel do Estado: proporcionar e possibilitar que cada cidadão encontre e exerça a sua vocação, de modo a que este se sinta plenamente realizado e, consequentemente, encontre felicidade.
Infelizmente, verificamos que inúmeros cidadãos que não são felizes. Não o são por uma simples razão: não encontraram ou não exercem a sua vocação. E quando assim é, estes cidadãos não só não produzem como também não se realizam plenamente como seres humanos em comunidade. Por exemplo, se eu me sinto vocacionado para ser professor de matemática, mas por razoes externas sou como que obrigado a ser professor de história, certamente eu não renderei o mesmo caso ensinasse matemática. É aqui que o Estado deve actuar. Antes de o aluno entrar na Universidade, o Estado deveria fazer, juntamente com os alunos em causa, um discernimento vocacional de modo que cada um pudesse ser realmente feliz. E, em termos económicos, estes cidadãos renderiam bem mais. Fica a questão: será que o Estado e o nosso sistema educativo escolar estão ao serviço da vocação?

Somos testemunhas de quê?


Somos testemunhas de quê?
O ardor missionário de S. Paulo



A partir da proposta do Papa Bento XVI que proclamou este ano um “Ano Paulino”, para celebrar os 2000 anos do nascimento de São Paulo, torna-se conveniente abordarmos o imperativo missionário que todo o baptizado é chamado a realizar em Igreja. Em virtude do Baptismo, todo o fiel leigo é vocacionado e chamado à missão. Em Paulo todos nós encontramos um modelo missionário que foi capaz, em virtude/sob da acção do Espírito Santo, de alargar o horizonte dos destinatários do Evangelho. Quando o Evangelho chega ao mundo greco-romano, igualmente conhecido pelo povo judeu como mundo pagão ou gentios, a Igreja primitiva é abalada por uma onda de questões que giram em torno do seguimento ou não dos preceitos do judaísmo: será que a Boa Nova dirigia-se somente ao povo judeu ou será que os pagãos também seriam destinatários desta Boa Nova?
Um judeu convertido a Jesus Cristo deveria sujeitar-se à circuncisão e obedecer às normas legais do povo judaico? Ou será que um pagão convertido, que passa a pertencer de imediato ao Povo de Deus, deve obedecer às leis especificamente judaicas?
Este alargamento do horizonte missionário foi-nos desafiado pelo saudoso Papa João Paulo II, à qual chama de nova evangelização. Hodiernamente a Igreja corre o risco de reduzir o seu campo de acção pastoral e missionário e limitar o anúncio da Boa Nova, de Jesus Cristo, àqueles que continuam no seu redil. É sempre mais fácil trabalhar com aqueles que entendem a nossa linguagem, que estão sempre disponíveis para nos ouvirem e para cooperarem connosco. Mas que sentido apostólico e missionário é este? Na verdade, não é nenhum. É necessário desinstalarmo-nos: necessitamos de renovar e de alargar do nosso horizonte. Parece que os nossos cristãos têm medo ou até alguma dificuldade em anunciar Jesus Cristo a uma sociedade cada mais secularizada e indiferente. A sociedade actual, apesar de haver uma separação cronológica e histórica, contém inúmeras coincidências e traços comuns: ambas estão marcadas por uma religiosidade cada vez mais pagã do que cristã; uma superstição que conduz a fanatismos religiosos e à ausência ôntica de Deus na vida pessoal de cada um e de cada um em comunidade; estão profundamente marcadas pelo hedonismo e pelo materialismo, “reduzindo o problema de Deus ao arbítrio e à decisão humana, fiel a ritos, mas incapaz de reconhecer o Deus vivo e transcendente” (CEP, nº2, 2008). Porém, em ambas as realidades sociais existem sintomas de insatisfação, que poderão levar renovação vivificante propícia do Evangelho.
Nesse sentido, torna-se urgente alargar o anúncio do Evangelho aos descrentes e aos que abandonaram a vida cristã. Para tal é inevitável que haja evangelizadores com as características exigidas pela nova evangelização. Devem estar como que possuídos de um novo ardor, uma vez que o seu testemunho é um primeiro anúncio de natureza querigmática. Cada um de nós deve testemunhar aquilo que ama: se eu amo verdadeiramente Cristo, então o meu testemunho será expressão do rosto de Jesus Cristo; se eu não amo Cristo, então o meu testemunho é uma autêntica falácia daquilo que eu procuro apresentar como verdade – estaremos sempre dentro do campo do “acessório” e da imagem. O esquecimento do “ser” e a valorização excessiva do ter – evidente realidade da sociedade actual – conduz ao esvaziamento ôntico da vida humana, bem como a uma depreciação dos valores éticos e morais. Aliás, se repararmos com atenção, hoje poucas pessoas ou até nenhumas introduzem no seu vocabulário corrente o termo “virtude”. Parece que é preferível dizer “porreiro”, ou “espectacular” ou ainda “fixe”. É evidente a mutação filiológica com que nos deparamos. O homem de hoje dá a entender que não quer ser um ser virtuoso, de princípios e bases sólidas e estáveis. Tudo que implique mudança, compromisso e desinstalação as pessoas rejeitam. A razão é simples: estes três termos atrás mencionados obrigam as pessoas e crescerem, a saírem dos seus “cantinhos” e “mundinhos”, a sofrerem para depois colher. A palavra “sofrer” deve ser aqui entendida no sentido de que cada coisa, como por exemplo toda a caminhada que o pão faz para chegar às nossas mesas, tem o seu ritmo natural de crescimento e que implica trabalho, esforço e até bastante sofrimento para que essa coisa possa ser uma realidade. Daí que, todo o cristão não pode pensar que evangelizar é uma realidade fácil. Antes de evangelizarmos temos que nos deixar livremente ser inundados pelo Evangelho, ser absorvidos e apaixonados por Cristo Jesus. Por isso, e como atesta a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), “evangelizar não é uma estratégia e não se reduz a um programa: é uma paixão de amor por Jesus Cristo e pelos nossos irmãos e irmãs”.
Na verdade, só quem se converte real e verdadeiramente a Jesus Cristo é que pode ser evangelizador. Esta é a certeza e o imperativo máximo do processo evangelizador. É imprescindível que nós nos deixemos tocar por Cristo. Sem Ele qualquer acção é oca e vazia. A exemplo de S. Paulo, cada um de nós é chamado a deixar-se a possuir por Jesus Cristo de modo a poder cooperar activa, frutuosa e conscientemente no anúncio do Evangelho.
Fica a pergunta: somos testemunhas de quê? De mim mesmo ou de Deus?

Que tranquilidade?!


Pergunta pertinente, sem dúvida. De facto, este é o grande drama do nosso tempo. Sendo a vocação uma realidade constitutiva à pessoa humana e um chamamento de Deus, torna-se necessário que cada pessoa humana individualmente encontre aquilo a que é chamado a ser. Pois a vocação conduz-nos à felicidade e à nossa mais íntima realização. Onde está a nossa vocação está igualmente a nossa felicidade, e vice-versa.
Nesse sentido, compete ao Estado, como entidade promotora da vocação, criar espaços não só de reflexão pessoal sobre a vocação do cada cidadão, como também proporcionar que cada cidadão se realize na sua vocação. Para tal, é urgente que cada um possa exercer a nível profissional aquilo a que é ontologicamente chamado a ser e a realizar. É este o papel do Estado: proporcionar e possibilitar que cada cidadão encontre e exerça a sua vocação, de modo a que este se sinta plenamente realizado e, consequentemente, encontre felicidade.
Infelizmente, verificamos que inúmeros cidadãos que não são felizes. Não o são por uma simples razão: não encontraram ou não exercem a sua vocação. E quando assim é, estes cidadãos não só não produzem como também não se realizam plenamente como seres humanos em comunidade. Por exemplo, se eu me sinto vocacionado para ser professor de matemática, mas por razoes externas sou como que obrigado a ser professor de história, certamente eu não renderei o mesmo caso ensinasse matemática. É aqui que o Estado deve actuar. Antes de o aluno entrar na Universidade, o Estado deveria fazer, juntamente com os alunos em causa, um discernimento vocacional de modo que cada um pudesse ser realmente feliz. E, em termos económicos, estes cidadãos renderiam bem mais. Fica a questão: será que o Estado e o nosso sistema educativo escolar estão ao serviço da vocação?

sexta-feira, junho 06, 2008

A formação para o testemunho cristão


É errado pensar que o testemunho pode parecer uma mascara. Na verdade, o testemunho é sinónimo real e exemplar da comunhão, de uma comunhão em permanente relação. Assim, o primeiro testemunho de Jesus Cristo dá-se na consciência. A consciência é este centro de opções do sujeito em si mesmo, num diálogo permanente com Deus e com os homens, na radicalidade e na fidelidade (a vida tem um sentido): é abarcar toda a realidade existencial numa perspectiva de futuro em estabilidade e harmonia interior. Exige, portanto, uma postura de escuta da Palavra de Deus e o “feedback”.
Com efeito, o íntimo da pessoa, como espaço privilegiado da vivencia dos sentimentos e como personalização do coração, da consciência e da própria interioridade, é este santuário e lugar da vida nova no Espírito Santo. Viver esta vida nova é tornar visível e real este indubitável sinal do testemunho cristão. Deste modo, o testemunho é viver esta lei nova do Espírito: é aqui que entra o processo fundamental. Um processo que é simultaneamente antropológico, comunitário, social e cultural. Ser-se verdadeira testemunha do acontecimento pascal é ser alguém que é sujeito da sua própria vida: é ver a vida como um realizar-se sem acontecer.
Em suma, a interioridade ôntica do ser humano é o centro da lei nova e do Espírito Santo. E, como tal, este caminho e processo de maturidade e crescimento faz-se em comunhão em Igreja para o mundo, para todos.