sexta-feira, julho 04, 2008
sexta-feira, junho 06, 2008
A formação para o testemunho cristão

Com efeito, o íntimo da pessoa, como espaço privilegiado da vivencia dos sentimentos e como personalização do coração, da consciência e da própria interioridade, é este santuário e lugar da vida nova no Espírito Santo. Viver esta vida nova é tornar visível e real este indubitável sinal do testemunho cristão. Deste modo, o testemunho é viver esta lei nova do Espírito: é aqui que entra o processo fundamental. Um processo que é simultaneamente antropológico, comunitário, social e cultural. Ser-se verdadeira testemunha do acontecimento pascal é ser alguém que é sujeito da sua própria vida: é ver a vida como um realizar-se sem acontecer.
Em suma, a interioridade ôntica do ser humano é o centro da lei nova e do Espírito Santo. E, como tal, este caminho e processo de maturidade e crescimento faz-se em comunhão em Igreja para o mundo, para todos.
terça-feira, maio 20, 2008
Reflexão dominical: Santíssima Trindade

A sua principal característica é a misericórdia. Este termo hebraico designa as entranhas e indica o sentimento mais íntimo e profundo que se pode imaginar, o sentimento que experimenta uma mãe para com o filho que traz no ventre: «Acaso pode uma mãe esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu – o Senhor – o esqueceria» (Is 49, 15).
Por isso, quando ouvimos na Bíblia a palavra «castigo», ela significa um acto medicinal por parte de Deus. É, acima de tudo, um acto de amor e de misericórdia. Por curiosidade, a palavra «pecado» vem do latim pecco, que indica uma pessoa que caminha mal, que tropeça ou que se engana no caminho. Nenhuma pessoa psiquicamente sadia vai à procura de males. Todos nós aspiramos à felicidade e à alegria. No entanto, há pessoas que erram o objectivo e, como consequência, provocam desgraças, causam tragédias, magoam-se a si mesmas e às outras, e as consequências dos seus erros repercutem-se, por vezes, até mesmo nas gerações futuras.
Deus não pune quem erra, não acrescenta mais males aos que o homem já fez, Ele intervém apenas para salvar, para dar um remédio às desgraças provocadas pelo pecado.
Nesse sentido, entende-se o primeiro versículo do Evangelho. O evangelista descobre que na origem de tudo está o amor gracioso e gratuito de Deus. Um Deus que ama infinitamente o homem, que quer fazer com ele uma aliança, que quer fazer dele quase um ser divino, que quer oferecer a vida, a vida em plenitude, uma vida que nunca tem fim, uma vida que é a vida eterna.
Este nosso Deus não é um Deus justiceiro, frio, insensível, distante. Ele fez-se um de nós para nos redimir de todo o pecado. Ardentemente Ele anseia vir ao nosso encontro. E nós, será que O deixamos trabalhar no nosso coração? A partir do nosso baptismo, nós fomos configurados em Cristo. Por acção do Espírito Santo, participamos por gratuidade na filiação de Cristo, e somos, desde o baptismo, filhos de Deus. Assim, a nossa relação com Ele só poderá ser uma relação filial, de pai para filho ou de mãe para filho.
Nós somos irmãos. Nós, que pela graça do baptismo entramos na família de Deus, somos chamados, aqui e agora, a sermos sinais visíveis deste amor que brota de Deus.
Senhor, mostra-nos o teu rosto de modo a que possamos ser reais e visíveis testemunhas deste amor numa historia e numa humanidade tão marcada pela discórdia, pela dor e pelo sofrimento,
quinta-feira, maio 08, 2008
O que nos espera?

Chegam-nos informações surpreendentes sobre uma pseudo-renovação eclesial. De um lado temos os conservadores/nostálgicos que anseio por retomar o Missal de S. Pio V; por outro, temos os vanguardistas e fiéis à renovação conciliar operada no Vaticano II. Porém, o Secretário da Congregação para o Culto Divino veio a público afirmar a sua intenção de retomar os ritos implícitos ao Missal de Pio V. Mas por que razão nós estamos a retomar quatro sécs.? Que significado teve e tem o Concílio Vaticano II?
A meu ver, estamos a cometer um verdadeiro "atentado intelectual". O renovamento deve partir sempre da fonte. A este respeito, três são as fontes: a Sagrada Escritura, a Tradição e o Magistério. Portanto, não será o Concílio de Trento a referência primeira. Colocá-la como tal seria simplesmente ridículo! Seria uma clara estagnação no tempo! Onde fica, com efeito, a dimensão da análise dos sinais dos tempos? Trento respondeu (e bem!) a um contexto histórico no qual ele estava inserido. No entanto, o Vaticano II está ainda a responder aos sinais dos tempos actuais.
A nível pastoral e litúrgico corremos o risco de sermos sinal de contradição. Vejamos um exemplo: imaginemos que numa determinada paróquia se celebra a Eucaristia a partir do Missal de Paulo VI, e que na paróquia ao lado, o sacerdote celebra a partir do Missal de S. Pio V. Pode parecer até disparatada esta situação/exemplo, mas se vier acontecer como poderemos nós responder aos fiéis tal disparidade?! Ou ainda: onde fica a universalidade e a unidade eclesial?
Com razão diz um amigo meu que não tardará a estarmos no "período da luva". Ou seja, segundo ele, os bispos voltarão a usar luvas brancas, os fiéis voltarão a comungar de joelhos e em fila, o sacerdote voltará a celebrar de costas para o povo e em latim. Mas não estamos a negar a força máxima da Igreja? Não estamos a negar o Concílio? Não é ele em termos jurídicos a voz máxima da Igreja? Então, onde ficam as palavras do Concílio Vaticano II?
É uma autêntica "crueldade" ao renovamento eclesial do Vaticano II. É com enorme pesar que vejo o desabrochar de um movimente inter-eclesial anti-Vaticano II. Na verdade, o que será no futuro? O que nos reserva os desígnios de Deus para o futuro. Creio piamente que o Paráclito não abandonará a Igreja. Confiemos na acção vivificante e santificate do Espírito Santo. É sempre Ele, e toda a Santíssima Trindade, que opera a renovação e nos dá o maior dos dons: a vida em Cristo, uma filiação na Igreja para a Igreja. É este o dom da santidade.
Não neguemos os esforços de todos aqueles que sonharam, projectaram e concretizaram a renovação eclesial no acontecimento conciliar Vaticano II.
domingo, abril 13, 2008
Tributo
quinta-feira, abril 10, 2008
Homilia IV Domingo da Páscoa

As Leituras deste domingo apresentam-nos a imagem do “Bom Pastor”. O que é o pastor? O pastor é um chefe e um companheiro. É um homem forte, capaz de defender o seu rebanho contra os animais selvagens; é também delicado com as suas ovelhas, conhecendo o seu estado, adaptando-se à sua situação, levando-as em seus braços, tendo sentimentos de ternura por cada uma delas como se fossem suas filhas. A autoridade do pastor é indiscutível, pois esta fundada na entrega e no amor.
No Evangelho de hoje, encontramos diversas imagens referentes à pastorícia. Uma delas é o aprisco: era um recinto circundado por muros de pedra, sobre os quais eram postos feixes de plantas espinhosas ou se deixavam crescer silvas para impedir que as ovelhas saíssem e os ladrões entrassem. É interessante assinalar que, no tempo de Jesus, juntavam-se os rebanhos, ficando um único pastor a tomar conta das ovelhas, enquanto os outros iam dormir. Mas pela manhã, quando cada pastor se aproximava da porta, as ovelhas reconheciam imediatamente os passos e a voz, levantavam-se e seguiam-no, certas de serem conduzidas a pastagens de erva fresca e a oásis com água pura e abundante. Seguiam-no porque se sentiam amadas e protegidas, o pastor nunca as tinha desiludido ou traído.
Cristo é o pastor perfeito porque dá a sua vida pelas ovelhas. Nesse sentido, o verdadeiro pastor tem uma característica única: a ternura. Ele conhece as suas ovelhas pelo nome e chama-as «cada uma delas». Para Jesus não existem massas anónimas. Ele interessa-se por cada um dos seus discípulos, tem em conta os seus talentos, as suas virtudes e as fraquezas de cada um. Jesus entende as dificuldades dos seus “filhos”, e, por isso, não antecipa os tempos, não impõe ritmos insustentáveis, mas considera a condição de cada um, ajudando-os e respeitando-os.
Por isso, Ele é a porta: «Eu sou a porta». «Eu sou»: nada mais é do que a afirmação da sua divindade, à imagem do «Eu Aquele que Sou». Quanto à porta, esta tem uma dupla função: deixa passar os donos da casa e impede a entrada aos estranhos. A porta impede a entrada dos ladrões e salteadores. Sabeis como é descrito no Evangelho a obra do ladrão? Ele rouba, mata e destrói. Três verbos, que no fundo, resumem as obras da morte. Pelo contrário, a acção do pastor é descrita de forma totalmente diferente: o pastor vem trazer a vida e vida em abundância.
Pela porta só passam os pastores, mas entram e saem também as ovelhas. Nesse sentido, só quem passa através de Jesus é que chega às pastagens verdejantes, encontra o pão que sacia e a água que brota para a vida eterna. Portanto, a Salvação está n’Ele e só n’Ele. Fora d’Ele, somos como «ovelhas desgarradas».
Jesus é a porta estreita porque pede a renúncia de cada um a si mesmo, o amor desinteressado pelos outros; mas é a única que conduz à vida, todas as outras são armadilhas, ratoeiras que levam a cair em abismos de morte: «larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele» (Mt 7, 13).
O homem: um ser vocacionado no Amor para o Amor

Uma resposta livre e positiva a este chamamento traz inevitáveis consequências: a primeira é a de caminhar em direcção à felicidade e à própria realização pessoal; a segunda, e talvez a mais determinante, é a partilha deste dom (ou dons) que recebo. Ninguém desenvolve o seu dom se o enterrar na areia e se não o puser a render! Se eu recebo este dom como sinal indubitável de graciosidade, tenho o dever e a missão de o aplicar e de o reencaminhar no e para o serviço ao próximo, ao irmão, de modo a ser sinal real e vivificante da bondade amorosa e graciosa de Deus. Portanto, este chamamento traz consigo a responsabilidade e a co-responsabilidade, uma vez que o dom remete para o outro e para a partilha.
A vocação corre o risco de ser compreendida de um modo individualista e intimista, e não tanto como um dom, aparecendo como um direito que visa apenas a realização de um projecto pessoal de vida segundo critérios subjectivos e selectivos, e não segundo o critério evangélico de «perder a vida» por Cristo e pelo Reino. A vocação não é uma coisa. Aliás, no hebraico bíblico nem existe a palavra “coisa”. O dom “é dado”, e é precisamente o “ser dado” que constitui o seu ser. O dom remete para os outros, para o Doador e para o seu incondicional amor. Contrariamente, todo o acto de posse é solidão, pois faz-nos viver no meio de objectos. E este é o mundo do “coisismo” e do consumismo. É o mundo da solidão: do super ou do hipermercado.
Eu não sou dono da vocação: eu apenas recebo-a para a partilhar. Este reconhecimento implica, portanto, a desmontagem do nosso mundo de posse, interesse, auto-conservação, auto-realização e auto-satisfação, aquilo a que Levinas chama de «egoísmo alérgico», que no fundo são os nossos egoísmos.
Consciente de que foi escolhido por Deus desde sempre, o indivíduo que é chamado deixa-se envolver na aventura da relação e do amor. O chamado descobre os projectos de Deus, identifica-se com eles e aceita testemunhá-los no mundo. Portanto, o amor é a chave de todas as vocações: o ministério ordenado, a vida consagrada religiosa e secular, e a laical.
Todo o ser humano tem o desejo e necessita de conhecer o sentido da vida e do seu lugar na história. É uma proposta contínua que não acontece apenas uma vez na vida: é uma caminhada. Não é só para jovens, pois o convite do Senhor a segui-Lo dirige-se a todas as idades e a vocação considera-se plenamente realizada apenas no tempo da vida. A terminar, deixo o convite a que todos rezemos com perseverança ao «Senhor da Messe», de modo a suscitar múltiplas e fecundas vocações.
sábado, abril 05, 2008
Homilia III Domingo Páscoa

Se repararmos atentamente apercebemo-nos que os discípulos estavam tristes, desanimados e desalentados. Tinham depositado em Jesus todas as suas esperanças. Isto é um claro e evidente sinal de que quem não está em Deus anda triste, angustiado e completamente desanimado. No entanto estes discípulos foram incapazes de compreender o porquê da morte de Jesus! Sabeis porquê? Nesta época os judeus pensavam que o Messias seria um grande rei e que destronaria o poder vigente. Era o denominado messianismo real. A par dos discípulos de Emaús, o próprio Judas tinha esta mesma ideia. Mas rapidamente se apercebe que o Messias não traz a desordem e a guerra, mas antes o amor e a misericórdia.
Por isso eles deixam a comunidade e vão para as suas terras. É este desalento que os acompanha. Eles abandonam a comunidade. Incapazes de crerem nas palavras das mulheres e de Pedro quando afirmam que Jesus havia retornado dos mortos, vão-se embora angustiados. Vede como eles eram incrédulos e «sem inteligência e lentos de espírito». O abandono da comunidade é o maior erro que qualquer crente pode cometer! Mas isto acontece com alguma frequência. E é interessante verificar que o escritor sagrado introduz em cena Jesus Cristo, apresentando-o como um mero caminhante. Ao iniciarem o diálogo, os discípulos de Emaús ficam admirados como é que aquele caminhante não sabia o que acontecera em Jerusalém. E é neste momento que Jesus assume-se como o único e verdadeiro Pedagogo. Ensinar-lhes-á toda a Escritura, mas mesmo assim eles continuam com cegos. Quantas vezes nós estamos cegos, apesar de ouvirmos a Palavra de Deus todos os domingos?
Esta cegueira é fruto de uma ilusória criação intelectual, ou seja, digamos que se deve a uma esperança construída sob a razão humana. Por isso andam angustiados e desalentados. Ausência de Deus é ausência da alegria e da felicidade. Porém, Deus não nos abandona como presas indefesas perante os dentes do predador. Ele acompanha-nos nesta caminhada de forma pedagógica: vai-nos gradualmente abrindo os olhos de modo a podermos reencontrar a felicidade e alegria. Daí que toda a caminhada é revelação. Todos os nossos caminhos são acompanhados por Deus. Nós somos como um copo onde Deus o vai enchendo-o; quando transborda entramos na cegueira e no mistério. Mas pela fé, e nunca pela razão, penetramos neste mistério de amor.
Quando os seus olhos descobrem Jesus, imediatamente pedem a Jesus que fique com eles. Apercebem-se que é Ele quando parte o pão: é a redescoberta da gratuidade e do dom. Reconhecer Jesus nos irmãos é fruto da doação de mim mesmo. Na medida em que eu partilho, eu encontro no irmão o rosto do Cristo ressuscitado. E ao reencontrar Jesus eu simplesmente retorno à comunidade, para celebrar a Eucaristia, celebrar a Páscoa.
A Ignorância de si mesmo como impossibilidade do relacionamento com Deus e com os outros (III)

Dentro da alteridade, ou simplesmente das relações que estabelecemos com o outro, a questão do si mesmo é fundamental. É dentro da dinâmica existente entre a união possibilitante do “si mesmo real” e do “si mesmo ideal”, que todo homem caminha com. Ora, nós caminhamos não com um Algo, mas com um Alguém; ninguém caminha, ou por outras palavras, amadurece per se (ou por si), mas vai atingindo a maturidade por meio da relação, de uma relação que se pode revestir sob múltiplas referências relativas (relativas no sentido de relação): relação “consigo mesmo” (que é a auto-estima), com o Outro (com a divindade: Deus), com os outros, e com as coisas. Como todos sabemos, o homem é um ser relacional por natureza; é da sua própria natureza relacionar-se com tudo aquilo que o envolve. Torna-se oportuno dizer que todos os homens, sem a excepção de nenhum, estão vocacionados à e para a relação.
Portanto, só na medida em que nós somos capazes de nos amarmos e aceitarmos a nós próprios é que seremos capazes, igualmente, de amar e aceitar os outros. Daí a importância do filão ético hebraico: quanto mais eu caminho para Deus, mais eu caminho para os outros, e vice-versa. Assim sendo, a felicidade está em amar e aceitar o outro tal como ele é, pois no outro está espelhado o próprio rosto de Cristo. Como poderemos intitularmo-nos cristãos se não amamos o nosso irmão (ou, igualmente, o outro)? Não são eles, em virtude do baptismo, filhos de Deus como eu, participantes na única filiação, a filiação de Jesus Cristo? E como poderemos amar a Deus se não nos amamos a nós mesmos e ao nosso irmão? Exige para tudo isto conhecermo-nos a nós mesmos.
quarta-feira, março 05, 2008
Homilia V Domingo - Quaresma

Ao analisarmos o texto verificamos que Jesus veio a saber por intermédio de outros que seu amigo Lázaro tinha morrido. Perante esta fatídica noticia, Jesus diz aos discípulos que Lázaro apenas está a dormir. Mais uma vez os discípulos não perceberam o que Cristo queria dizer com estas palavras: «Senhor, se dorme, estará salvo». Jesus referia-se à morte de Lázaro, mas eles entenderam que falava do sono natural.
É então que Ele vai ter com Marta e Maria, irmãs de Lázaro, a Bêtania. Ao saberem que o Senhor as tinha ido visitar contaram-lhe o que estava a suceder. Como que em tom de desabafo, Marta diz a Jesus: «Senhor, se estivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido». Jesus, como mostra o Ev emociona-se! Esta passagem mostra o quanto Jesus Cristo é verdadeiro homem. Mas mostra ainda mais que o próprio Deus se emociona. Só se emociona quem tem sentimentos, certo?! Mas este sentimento traz consigo outro sentimento ainda mais profundo: o amor. É tal o amor que Deus nutre por cada um de nós que constantemente nos reanima para a vida. O que é o sacramento da Penitencia senão isso mesmo? É, como dizias os Pe da Igreja, a segunda tábua de salvação. Cada vez que nos confessarmos estamos a limpar todo o pecado que em nós existe, mas também estamos a receber pela força da graça a nova vida que nos conduz à ressurreição.
Ele declara: «Quem acredita em mim nunca morrerá». Que significam estas palavras?
Vamos supor que no seio de uma mãe há dois gémeos que podem ver, entender, falar um com o outro durante os nove meses de gestação. Eles apenas conhecem o seu pequeno mundo e não imaginam como possa ser a vida fora deste ambiente. Não sabem que as pessoas casam, trabalham e viajam, não têm ideia de que existam animais, plantas e flores. Conhecem apenas a forma de vida que experimentam. Passados 9 meses nasce o primeiro gémeo. O que ficou ainda por um breve instante no seio materno pensa: «o meu irmão morreu, já não existe, deixou-me…» … e chora. Porém, o irmão não morreu. Simplesmente deixou uma vida limitada e breve, e entrou numa nova forma de vida.
Na perspectiva cristã, portanto, a vida neste mundo é uma gestação, e a morte é vista por quem fica, e não por quem morre (Falar em Levinas). Então podemos compreender por que motivo Jesus se alegra por não ter impedido a morte de Lázaro. Jesus vê-a na óptica de Deus: vê-a como o momento mais importante e mais feliz para o homem. Com uma expressão muito justa, os cristãos na antiguidade chamavam «dia do nascimento» (dia natalis) àqueles que partiam para junto do Pai.
É celebre a frase de Lao-Tsé : «Aquilo que para a larva é o fim do mundo, para o resto do mundo é uma borboleta». A larva não morre. Desaparece como larva, mas continua a viver como borboleta. Torna-se noutra realidade muita mais bela.
«Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?» (Marta).
E vós acreditais?
domingo, março 02, 2008
A Ignorância de si mesmo como impossibilidade do relacionamento com Deus e com os outros (II)

Como já vimos anteriormente, os “Filósofos das suspeita” e o Liberalismo são a base explicativa para e dos problemas actuais. A isto acresce a ignorância que cada pessoa (ou de cada sujeito) tem de si mesma. Durante o Natal ouvimos dizer que o maior problema da humanidade é a ausência de Deus no coração do homem. Estas palavras foram proferidas pelo Cardeal Patriarca de Lisboa na “Mensagem de Natal” (2007) e que foi transmitida pela televisão. Eu pergunto: será realmente este o maior problema?! De facto, é um problema gravíssimo e que brota das bases ulteriormente mencionadas. Mas, tendo em conta a realidade nacional, será este o problema de fundo? Porquê que é que temos o hábito de falar as coisas de modo tão abstracto? Num sentido abstracto, realmente, este é um problema sério. Mas se nós, porventura, formos capazes de nos conhecermos a nós mesmos não será que encontraremos o devido espaço de Deus no nosso coração? Quanto mais nós nos conhecemos mais Deus se torna presente.
Se eu andar alienado como uma cana que vira consoante o vento, certamente sentirei a ausência de Deus. Mas se eu me conhecer e se fizer um esforço quotidiano nesse sentido, certamente sentirei muito mais a presença de Deus. No entanto, se me conhecer a mim mesmo sob a chefia da fé, então Deus estará sempre presente no meu coração. Se nós, como Igreja, queremos isto mesmo, devemos elaborar uma cuidada pedagogia de educação na fé. Atenção que eu disse na fé (e não da fé). Educa-se sempre na fé. Apesar de tudo ela é um conceito dinâmico, mas porque se trata de um conceito dinâmico ela é pura manifestação de Deus: é um dom de Deus ao homem. João Paulo II (In, Fides et ratio) afirmava que a fé e a razão são as duas «asas» do conhecimento, inseparáveis entre si. Todavia, é possível existir a razão sem a fé, mas o inverso é impossível. A explicação é simples: a fé é, e deve ser sempre, razoável, isto é, a fé em si mesma contém um substrato intelectivo. Pois estou convencido que ninguém me dirá que crê só por crer! Todo o crente afirmará que crê por esta ou por aquela razão: há um substrato racional que nada mais é do que as razões da minha crença.
Daí a importância da Autenticidade. Uma verdadeira e genuína autenticidade implica o conhecimento de nós mesmos. Só deste modo poderemos amadurecer e sermos realmente felizes. É uma felicidade que brota da perfeita relação existente entre nós e Deus, e que nos impele a ver no homem um outro ‘eu’ de mim mesmo: o outro é um alter-ego (alter = outro; ego = eu). Como dizia P. Celan, «eu sou tu quando eu sou eu». Não olhemos o outro apenas numa dimensão filantrópica, pois tal atitude seria redutora. Olhemos, portanto, o outro como um irmão, como um outro ‘eu’ como eu. E, imbuídos pelo espírito cristão de amor e filiação, iremos ver no outro um ser infinitamente amado por Deus como eu, um ser que, tal como eu, é chamado à santidade e vocacionado para a santidade e para a felicidade. Este outro é o irmão. Nós, porventura, não nos tornamos irmãos em virtude do baptismo? Quantas vezes já não ouviram o celebrante (o presidente da celebração) dizer «meus queridos irmãos e irmãs»? Pois bem, neste nosso irmão passa como luz refulgente o rosto de Cristo, o rosto do Infinito, um rosto que espelha o rosto humano e divino de Jesus Cristo. O nosso irmão é sinal e presença de Deus no meio de todos nós.
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
Virgindade e Celibato

será toda a vida um combate;
porque a cratera da carne só se cala
quando a morte fizer calar os seus brazeiros.
Sem fogo no lar e com o sonho mudo,
sem filhos nos joelhos a quem beijar,
sentireis o gelo cercar-vos
e muitas vezes sereis beijados pela solidão.
Não deixeis o coração sem núpcias.
Deveis amar tudo, todos, todas,
como discípulos d'Aquele que amou primeiro.
Perdida para o Reino e conquistada,
será uma paz tão livre quão armada,
será o Amor amado a corpo inteiro.
CASALDÁLIGA, P., In CENCINI, A. - Virgindade e Celibato hoje. Para uma sexualidade pascal. Lisboa: Paulus, 2008.
sexta-feira, fevereiro 15, 2008
Reflexão dominical
II Domingo da Quaresma(Ano A)
A transfiguração que acabamos de ouvir no Evangelho apresenta-nos, como em antecipação, a vida e a imortalidade a que somos chamados. Esta leitura começa com uma anotação aparentemente irrelevante, que não consta da leitura aqui feita: «seis dias depois». Mas depois de quê? Não é dito, mas a referência mais provável parece ser a do debate acerca da identidade de Jesus que acontecera na região de Cesareia de Filipe.
É curioso o facto de Jesus, sobretudo em S. Mateus, sempre que faz ou diz algo de importante, é utilizada a expressão «subir ao monte». Reparemos que a última tentação acontece no cimo de um monte; as bem-aventuranças são pronunciadas igualmente num cimo de um monte; é num monte que são multiplicados os pães. Porque razão Jesus tem uma predilecção especial pelos cimos dos montes? O monte, na Bíblia e em todos os Povos da Antiguidade, era o local de encontro com a divindade. Se não vejamos: quantos santuários nós não conhecemos nos cimos das montanhas? Vede aqui em Mangualde, onde está o Santuário da Nossa Senhora do Castelo? Não está num cimo do monte? Havia antigamente, desde tempos imemoriais, a ideia de que quanto mais perto tivéssemos do céu, como é o caso dos cimos dos montes, mais perto estaríamos de Deus.
O objectivo do Evangelista é claro: ele quer apresentar Jesus como o novo Moisés, como aquele que entrega ao novo povo, povo este que está representado pelos 3 discípulos, a nova lei. Ou seja, Jesus Cristo é a revelação definitiva de Deus.
Tenhamos agora em atenção às expressões aqui utilizadas. Fala-se em «rosto resplandecente e vestes brancas», fala-se ainda em «nuvem luminosa». Esta primeira imagem procura mostrar a divindade de Jesus. Uma teofania, isto é, uma manifestação de Deus, que envolve os demais com a presença de uma nuvem. A nuvem, no povo bíblico, expressava a presença de Deus no meio da humanidade. O rosto resplandecente e a nuvem são, portanto, o reflexo da presença de Deus.
Quantos discípulos foram com Jesus até ao cimo do monte? E quem eram esses discípulos? Estes personificam todos os discípulos. Eles tiveram a felicidade de serem chamados para presenciar e viver plenamente uma das maiores manifestações de Jesus (teofania). Nós somos igualmente chamados a viver esta presença de Deus na nossa vida. Não pensemos que isto é algo de abstracto! Deus anseia por Se dar a conhecer integralmente a cada um de nós. Tal como a mãe anseia pelo regresso do filho, o próprio Deus anseia por entrar no coração de homem. Todos nós somos chamados por Deus à felicidade.
Quando se dá o apogeu da teofania ouvimos uma voz que vem do céu: que voz era esta? E o que dizia ela? (este é o meu Filho muito amado»). Depois de terminada esta exortação acrescenta: «escutai-O!». A palavra «escutar» não significa apenas «ouvir», mas muitas vezes significa «obedecer». Atenção que não se trata de um obedecer reverencial, mas antes de um obedecer de cariz racional. Portanto, esta última recomendação de Deus Pai aos discípulos – Pedro, Tiago e João – não é mais do que um convite a orientar a vida pela sua proposta das bem-aventuranças.
Reparemos que S. Pedro afirma: «façamos aqui 3 tendas». Isto significa o quão agradável deve ser estar na presença de Deus. Pedro parece que, com esta afirmação, perpetuar esta alegria experimentada num momento de intimidade espiritual com o Mestre, Jesus Cristo. Mas Jesus está sempre em caminho: dirige-se a uma meta, e os discípulos devem seguí-Lo.
A nossa própria experiência espiritual pode-nos ajudar a entender que, após um longo diálogo com Deus, não é nada fácil voltar à vida de todos os dias: os problemas, os conflitos sociais e os desacordos familiares, os dramas com que nos defrontamos metem-nos medo, e, no entanto, sabemos que escutar a Palavra de Deus não é tudo. É sobretudo necessário irmos ao encontro do nosso ‘irmão’: é necessário sair para encontrar e servir os irmãos, para ajudar quem sofre, para estarmos próximos de quem precisa de amor.
Depois de termos descoberto na oração o caminho a seguir, é preciso caminhar com Jesus, que sobe a Jerusalém para dar a vida.
Opinião
A Ignorância de si mesmo como impossibilidade do relacionamento com Deus e com os outros (I)

O homem actual não se conhece. Tinha razão Kierkegaard ao ver na «angústia» o grande problema do homem. Esta «angústia existencial», nascente do existencialismo e do niilismo (ou nihilismo) de Sartre e de Nietzsche, consecutivamente, é para Kierkegaard o estado de inquietude do existente humano originado pelo pressentimento do pecado e vinculado ao seu sentimento de liberdade, que faz com que a pessoa tenha medo de si mesma, e, como tal, incapaz de olhar para o mais íntimo dela mesma. Sartre a este respeito afirma que «a angústia distingue-se do medo, porque o medo é medo dos seres do mundo, enquanto a angústia é angústia diante de mim».
Nós falamos neste ou naquele problema, mas parece que o fazemos de um modo abstracto, sem conseguir descortinar as raízes dos problemas a eles inerentes. Os problemas actuais têm razões históricas, sociais, culturais e filosóficas. Assim sendo, dois factores estão na base dos problemas hodiernos: os sistemas liberais (liberalismo e o capitalismo) e as questões/sistemas filosóficos dos sécs. XIX-XX (marxismo, niilismo e existencialismo).
Nós, porventura, não vivemos sob um regime político-social liberal? Pois bem, aqui encontra a raiz primordial do(s) problema(s). Com efeito, se sabemos onde está a raiz ou o cerne do problema, por que razão não fazemos tudo por tudo para contrariar as tendências actuais?! A razão é simples: somos ignorantes de nós mesmos. Se queremos mudar a situação actual, teremos, primeiramente, de nos conhecermos a nós mesmo, e, assim, mudar o desenrolar das tendências quotidianas. Não basta, porém, ter um conhecimento superficial de nós mesmos, mas antes fazer uma elaborada auto-análise por meio da auto-observação, onde o sujeito e o objecto se identificam, uma vez que se trata da pessoa em si mesma. Atenção que, nesta auto-análise, não devemos elaborar qualquer juízo de valor moral. Para que se execute uma boa auto-análise devemos ter os seguintes critérios: atitudes e comportamentos; ideias e sentidos; gestos e repulsas; desejos e frustrações; esperanças e receios; amores e ódios. Estes critérios levar-nos-ão ao conceito de si mesmo como auto-estima. Uma auto-estima que nada é mais do que o amor por nós próprios, definindo-se como o conjunto de sentimentos, pensamentos e acções que fazem com que cada pessoa se considere digna de ser valorizada e querida por si mesma, sem ter necessidade de recorrer ao exterior para isso mesmo. Contudo, nesta auto-análise devemos evitar atitudes narcisistas.
Urge conhecermo-nos e acabar de vez com a ignorância. E isto em termos espirituais é fundamental para se ter uma fé esclarecida e comprometida na e com a vida comunitária e eclesial. Contrariamente ao que acontece no Estado, a Igreja tem a obrigação e o dever de formar os seus “filhos”, e uma formação que deve ser permanente. Ao Estado convém-lhe haver ignorância, pois facilita a governação, uma vez que há vozes críticas. Na Igreja é o inverso: quantos mais formandos houverem melhor será a própria Igreja. A Igreja, como Mãe que é, deve providenciar o crescimento intelectual, cognitivo, humano e espiritual dos seus “filhos”. Mas atenção que este crescimento não pode ser única e puramente de ordem intelectual ou ‘cienticista’ – não se trata exclusivamente dum saber intelectual. Na verdade, este saber deve ser o da sabedoria. A sabedoria é aquela, que em si mesma, é capaz de aliar a dimensão intelectiva e a dimensão experiencial/vivencial. Quero com isto dizer que, a sabedoria é aquela que tem sabor, aquela que se pode saborear com o próprio paladar. Aliás, até a sua raiz etimológica prover de saber como sabor e saber como cognitividade. É este saber, sem dúvida, que a Igreja deve promover e apostar, apesar da disparidade unitiva existente entre a vivência da fé na vida quotidiana, para uma correcta formação dos seus “filhos”. A sabedoria deve ser para todo o homem um objectivo.


